Bom, que Obama fosse nomeado na convenção democrata como candidato à presidência dos EUA para as eleições de Novembro não era um facto propriamente inesperado, mas na convenção está tudo muito comovido e lacrimejante.
Eu nunca tinha prestado muita atenção às convenções partidárias, na realidade só as conhecia dos filmes e séries e do beijo de Al Gore à mulher e de uns pedacinhos de discursos dos candidatos presidenciais. Desta vez, no primeiro dia ainda fiquei à espera de ver a Michelle Obama, mas não resisti até tão tarde; ontem tinha uma febre ligeira a assaltar o meu filho e houve mais que fazer; hoje assisti a um bocadinho do roll call e fui ver o discurso de ontem da Hillary Clinton. Disto tudo, retiro que as convenções são puro entretenimento. A Nancy Pelosi estava há momentos a aclamar Obama e tinha vestido uma roupa adequada para um coktail e usava ao pescoço um daqueles colares de pérolas grandes douradas e cinzentas e negras que, a ser verdadeiro, não custa menos de uns 15.000 dólares. O púlpito sobe e desce, as luzes estão estudadíssimas, há intervalos musicais em que toda a gente presente na arena se põe a dançar, aparentemente de forma voluntária. O roll call foi grandiloquente e cheio de expressões supostamente para chamar às armas as hostes democratas. Sobretudo, os discursos que tenho ouvido (menos a excepção que se segue) são de um populismo feroz e risível; que ataquem McCain está muito bem, estão lá (também) para isso, mas que refiram Barack como o salvador da pátria e do mundo é, bem, algo infantil.
O discurso de Hillary foi excelente. (Com uns laivos de populismo, também, mas com mais sumo). Corre o risco de ser o discurso da convenção. É eloquente mas tem substância e é empática. Apoiou sem restrições Obama sem fazer o seu discurso sobre Obama. Atacou McCain de forma elegante mas muito bem conseguida. Apelou à unidade – coisa que fez sinceramente mas também apreciou haver a necessidade de proferir esse apelo e de relembrar aos seus delegados e apoiantes que a eleição não é sobre ela mas sobre valores e, por fim, sublinhou como nada mais a falta de unidade existente.
Para terminar, como se hão-de interpretar os votos simbólicos que os delegados fizeram questão de atribuir a Hillary, depois de a ex-candidata os ter libertado do pledge? Terão sido só uma homenagem? E o que significou a não-votação da Califórnia?