Ora, o debate

A primeira nota do debate, desculpem-me, não vai para questões políticas. A interacção entre os dois candidatos foi muito curiosa e reveladora de parte do seu carácter – e numa eleição destas é óbvio que o carácter dos candidatos importa (não só os valores, mas a capacidade de liderança, o respeito que demonstra pelas opiniões desfavoráveis, a humildade para reconhecer que se pode enganar e que há quem tenha contributos importantes e benéficos além do próprio, a educação, que também não se confunde só com boas maneiras, a capacidade de aceitar uma crítica, etc., etc.). Cada um foi firme nas suas posições, o que esteve muito bem. No entanto, o que se salientou nas escaramuças verbais entre os candidatos foi mesmo a má educação de Obama. Vezes sem conta interrompeu McCain ou começou a falar por cima do adversário (porque McCain não se calava). Para mim, foi o aspecto mais desagradável do debate. Nós por cá estamos habituados a debates caóticos em que metade dos temas não chegam a ser debatidos por falta de tempo, mas nestes formatos mais rígidos o comportamento de Obama incomoda e muito. Por seu lado, McCain revelou um profundo desprezo por Obama, não muito diferente daquele que Bill Clinton se esforça (pouco) por esconder. McCain não interrompeu Obama, não olhou para Obama e deixou muito claro que o considerava um irreponsável. Entende-se este comportamento: Obama, o candidato da ética na polítca, tem feito uma das campanhas mais negativas dos últimos tempos, com abundantes mentiras sobre o oponente nos seus anúncios. Com moralistas que são também mentirosos, eu concordo com McCain: ofereça-se-lhes apenas desprezo.

Dito isto, MCain pareceu-me melhor tanto na parte económica como na parte de política externa. Se na parte da política externa considero o que disse uma verdade auto-evidente, já na parte económica aceito que se deva à partilha de posições com McCain. Em todo o caso, McCain referiu que seria necessário congelar os gastos públicos (excepto com defesa e veteranos) como consequência da crise económica e do que vai custar ao estado americano para a suavizar (os tais 700 mil milhões de dólares); Obama, no entanto, não apreceu muito preocupado com as limitações de orçamento que vai ter. O ataque aos earmarks de McCain foi eficaz, e tanto mais pela quantidade de earmarks pedida por Obama, que apenas terá recusado pedi-los depois da sua candidatura (um novo-convertido, como referiu McCain). Também nas referências à política energética McCain esteve melhor.

McCain usou humor (coisa que eu desconfio que Obama se leva demasiado a sério para contemplar fazer) e Obama teve a melhor prestação num debate, de longe.

Como nota final, o debate serviu para os candidatos resumirem as suas posições de campanha e se atacarem mutuamente. Não houve questões difíceis para nenhum dos candidatos e nenhum deles foi confrontado consigo próprio. Talvez nos próximos.

(Ainda só encontrei esta sondagem, que dá vantagem a Obama como vencedor do debate; mas e explicação deve estar no que é escrito no final do texto: os espectadores do debate foram democratas numa percentagem significativamente superior à da média nacional. De qualquer forma vai ser interessante ver os efeitos do debate nas sondagens dos próximos dias.)

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Genéricos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s