Nem todas as feministas são radicais e burras

Shelly Mandell, a presidente da National Organization for Women de Los Angeles, apoiou Sarah Palin. Eu reconheço que não atribuía, antes desta campanha presidencial, grandes capaciades intelectuais ou políticas às feministas norte-americanas, que são tão assanhadas quanto ao Roe v. Wade mas convivem complacentemente com a inexistência de licença de maternidade paga e também não se incomodam grandemente com a dimensão temporal da licença não-paga. A únida prioridade das feministas norte-americanas tem sido clara: manter o direito ao aborto como está sem permitir qualquer restrição adicional, mesmo que esta seja a obrigatoriedade de fornecer analgésicos a um feto que vai ser abortado e que segundo as mais recentes investigações já poderá sentir dor – porque isso poderia criar problemas de consciência à grávida, único ser a precisar de protecção, como se vê.

O despeito com que as feministas receberam Palin confesso que me fez envergonhar do meu género. Uma coisa é não concordarem com as políticas de Palin e não lhe darem o seu voto; outra é não reconhecerem que Palin é uma mulher bem-sucedida, competente, carismática, empática, reconhecida pelos seus méritos, enfim, tudo aquilo que o movimento feminista deveria querer para as mulheres; ou defenderem que a eleição de Sarah Palin é um retrocesso para o movimento feminista (como a tolinha da filha da Nancy Pelosi, por exemplo, cujo nome não recordo e não me apetece procurar, já defendeu na televisão nacional). Isto já é burrice clara e hipocrisia cristalina. Só porque Palin é pró-vida.

Bem, na verdade acho que não é só porque Sarah se opõe ao aborto nem pela sua opção familiar. Na verdade acho que é porque Sarah não teve de pagar o preço que estas feministas radicais pagaram por seguirem a sua vida de acordo com a sua exclusiva vontade. Na verdade, acho que é tudo uma questão de despeito e de inveja (esse sentimento tão, oh tão humano). Sarah não teve de abdicar da família para se dedicar à carreira profissional nem necessitou de atrasar a carreira profissional por motivos familiares. Sarah tem um marido apresentável e que obviamente a apoia e acredita nela, tanto como mulher e mãe, como como governadora e vice-presidente; não foi obrigada a suportar um marido mulherengo e indiscreto que a ajudasse na progressão política (como Hillary Clinton com as infidelidades públicas e embaraçosas do marido Bill). Sarah não carrega a cicatriz emocional de ter feito um aborto; escolheu ter cinco filhos, um dos quais com síndrome de Down. Para terminar, Sarah é uma mulher bonita e muito feminina, não se lhe podendo colar o estereótipo da mulher de direita masculina que se mexe na política como um homem.

Sarah tem tudo a seu favor. E isso é imperdoável. Não interessa que Palin defenda o title ix e pagamento igual para trabalho igual, também interesses dos movimentos femininos. Ou que tenha conseguido precisamente aquilo que as feministas sempre desejaram. Mas quando a dor de cotovelo passar, Shelly Mandell é que tem razão: Palin “is what a feminist looks like”.

Uma nota curiosa: as notícias deste apoio a Palin na imprensa norte-americana foram escassíssimas, como aqui bem se refere.

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