O carácter

Há uma coisa que pesa no voto dos americanos: o carácter dos candidatos. Claro que os ataques de carácter são levados ao extremo do outro lado do charco, mas este escrutínio tem muita razão de ser. Eu, por mim, também coloco a fibra moral dos candidatos à apreciação quando decido o meu voto. E isto não tem nada a ver com os valores que eu possa partilhar ou não com o candidato – porque, como disse lá em baixo, discordar de uma pessoa em quase nenhum caso impõe um juízo moral sobre essa pessoa (já um juízo de inteligência segue-se quase sempre). E o carácter não é uma coisa irrelevante num candidato, apesar de na Europa e muito particularmente em Portugal o caráter parecer ser visto assim como uma reserva de intimidade a quem ninguém deve ter acesso. E para conhecer o carácter de um candidato é sempre necessário conhecer o seu percurso de vida, profissional e pessoal, as suas opções e o que as fundamentou. Há limites, claro, não é necessário conhecer as causas de um divórcio ou a quantidade de discussões dentro de um casal, ou as dificulades na escola dos filhos ou…, mas os limites aceites em Portugal são excessivamente restritos.

O carácter é relevante, como disse. Não bastam as ideias de um candidato serem agradáveis para os meus ouvidos. É necessário que eu acredite que esse candidato é sério a ponto de seguir as políticas que apresentou em campanha e não outras diferentes ou mesmo contrárias. É necessário que eu o considere corajoso para defender as suas ideias que foram referendadas perante as dificuldades e contratempos inevitáveis. É necessário que as políticas sejam mais importantes para o candidato do que os ciclos eleitorais. É necessário que o candidato aja segundo os princípios da boa educação (que está longe de se restringir à observância de boas maneiras) e do respeito pelos demais (isto é quase uma redundância). É necessário que eu acredite que o candidato se vá abster de esquemas obscuros (e o melhor indicío de tal é que se tenha abstido até ao momento da candidatura). Por fim, é necessário que o candidato coloque os interesses do país acima dos interesses pessoais ou partidários.

Para que se perceba o carácter dos políticos estes têm de se submeter a algum escrutínio adicional. Por exemplo, o presente Primeiro-Ministro – que tão pouco respeito mostra pelos direitos alheios – tem uma postura verdadeiramente secretiva sobre a sua vida (exceptos nos vislumbres que lhe interessa dar a conhecer). Pensa não ter explicações a fornecer sobre os casos muito exóticos da sua licenciatura e curriculum apresentado e sobre os seus projectos de arquitectura nas Beiras. A vida privada é absolutamente resguardada (excepto nos tais vislumbres). Depois, politicamente, parece incapaz de cumprir uma promessa e quando diz cumpri-la tem primeiro de distorcer a promessa original com interpretações absurdas e diferentes do sentido dado por toda a gente que acreditou ou não na promessa, sem que na altura houvesse esclarecimentos sobre o significado da promessa – leia-se, sobre isto, as palavras de MFL. Avaliado tudo isto, em minha opinião o carácter de Sócrates não é adequado para um Primeiro-Ministro.

No lado oposto, Cavaco Silva parece-me um político com carácter. E muito por isso, e independentemente de discordâncias que tenha com algumas das suas decisões como PR ou das suas intervenções, se se recandidatar votarei nele (outra vez, de resto).

Nos EUA, o carácter de Obama levanta-me vastas reservas. Parece-me o típico candidato que diz tudo e faz tudo o necessário para ser eleito, mau grado as posições passadas ou os princípios. São sintomáticas as nuances que foi acrescentando à sua proposta de política externa inicial ou a sua recusa de honrar a promessa de usar o financiamento público para a sua campanha.

Já o Joe Biden me parece um bom rapaz. Claro que produz gaffes atrás de gaffes, e o seu conhecimento de política externa é periclitante. No entanto gosto do seu sentido familiar, da opção de se apoiar no seu clã para as batalhas políticas, no apoio que deu aos filhos pequenos depois de ter morrido a sua primeira mulher. (Ao contrário de Obama, novamente, que tem uma tia em situação ilegal nos EUA sem que ele saiba e que deixa o meio irmão keniano viver em situação de pobreza). Ler, sobre Biden e família Jill Biden-All the Vice-President´s Women. Quem não aceita expor a vida privada nestes moldes inocentes e respeitosos deste artigo da Vogue devia seguir outro caminho na vida que não a política. Porque estes ajudam à avaliação do carácter.

Advertisement
Esta entrada foi publicada em Genéricos. ligação permanente.

2 respostas a O carácter

  1. A. R diz:

    “bastas” –> “vastas”

  2. Carmex diz:

    Tem razão, AR, vou corrigir. Obrigada.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s