As coisas que se lêem e os problemas que as pessoas inventam

Li na última Sábado um texto sobre mães que se irritam por serem tratadas por “mãe”; não pelos filhos (se bem que em alguns casos se parecia chegar a esse limite), mas pelas outras pessoas: os médicos, os professores, os colegas dos filhos e o mundo em geral. Confesso que também acho um pouco ridículo que a enfermeira que dava as vacinas ao meu filho no centro de saúde, bem como outros médicos e enfermeiros durante consultas da pessoa mais pequena lá de casa, me tratasse por “mãe”; enfim, não sou mãe desses senhores e senhoras e acho despropositada a confiança. Mas reconheço que acho inteiramente normal que as mães dos colegas do meu filho me perguntem, ao telefone, se sou a mãe do Francisco e se apresentem como a mãe do Rodrigo, por exemplo. Eu fiz o mesmo quando respondi por telefone a um convite para uma festa de aniversário de uma menina da sala do meu filho. Não nos conhecemos, não temos relação, o elemento de ligação são os filhos, pelo que a forma mais lógica de apresentação é esta, mesmo que acompanhada pelo nome próprio, o que claro que também é simpático. Ainda nas consultas de urgência me parece inteiramente correcto que me tratem novamente por “mãe do Francisco”. Os médicos e ajudantes têm demasiada informação para apreenderem para se ocuparem a decorar por minutos o meu nome. Nunca esta forma de tratamento me fez sentir um apêndice do meu filho ou alguém sem identidade para além do meu papel de mãe. E nunca me ocorreu que as pessoas a quem eu pergunto “é a mãe de…?” sejam umas tolas que se esgotem enquanto mães e que mais nada tenham a oferecer ao mundo.

(E o mesmo se aplica à identificação de “mulher de”; como é óbvio, aos colegas do meu marido que não me conhecem, ou em reuniões familiares alargadas com caras de que apenas nos recordamos vagamente mas não colocamos no lugar certo, acho normal esclarecer quem sou deste modo; afinal eu não estou nesses sítios em nome próprio. O mesmo sucede em simetria com o meu marido nas mesmas situações, sem quaisquer dramas.) (De resto, orgulho-me muito destes qualificativos “mulher de…” e “mãe de…”)

Contudo, algumas mães que devem estar ociosas em demasia para se encarregarem de inventar problemas entendem que serem tratadas por “mãe de …” é uma afronta que a sociedade lhes faz e uma tentativa feroz de lhes roubar a individualidade e as plasmar apenas como mães. Até criam sites e, qualquer dia, associações para protestar contra este ingóbil facto da vida.

Repito: é não terem nada que fazer, para se ocuparem com disparates. Ou, então, têm tão pouca confiança nas suas qualidades fora da maternidade que se sentem em perigo se a sociedade não as reconhecer como mulheres, profissionais,beneméritas, o que for, em cada minuto dos seus dias. Sinceramente, problema dessas senhoras. O que se agradece é que não chateiem as suas semelhantes um bocadinho mais seguras de si próprias. E que a comunicação social, à falta de histórias interessantes e contáveis, não apresente estas tonterias como se de uma tendência irreversível e mui moderna da sociedade se tratasse.

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2 respostas a As coisas que se lêem e os problemas que as pessoas inventam

  1. PR diz:

    Mais uma vez, a verdade, apenas a verdade, e nada mais que a verdade…

  2. Maria João Marques diz:

    Quase o juramento dos tribunais americanos!

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