A inutilidade da formação

Através do Joaquim do Portugal Contemporâneo, descobri esta notícia da edição impressa do Público de Domingo (pág.13), da jornalista Natália Faria:

Sucesso profissional é determinado logo na infância
Investigadores seguiram 400 mil trabalhadores para concluir que os nossos salários já estão definidos
à entrada na idade adulta
O salário que uma pessoa receberá ao longo da vida está mais ou menos definido à chegada à idade adulta, segundo um estudo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Depois de dois anos a avaliar a situação de cerca de 400 mil trabalhadores, os economistas Paulino Teixeira e Ana Sofia Lopes concluíram que o sucesso profissional dos trabalhadores adultos é determinado pela educação que estes receberam no pré-escolar e nos primeiros anos de escola.
“Podemos afirmar, eventualmente com algum exagero, que, aos 18 anos, já está tudo determinado e que já é possível nesta fase saber qual é o perfil salarial dos indivíduos”, declara Paulino Teixeira, para reforçar a ideia de que “os primeiros anos de aprendizagem são decisivos”, muito mais do que a formação profissional que cada um venha a receber ao longo da vida.
“É ainda em tenra idade que se adquirem as características que acabam por ser decisivas na inserção no mercado do trabalho, como a persistência, a disciplina, a ambição, a capacidade de trabalhar em equipas e de as liderar”, precisa o investigador.
O ponto de partida do estudo, que se enquadra na tese de doutoramento de Ana Sofia Lopes, era explicar as disparidades salariais dos trabalhadores e perceber que repartição era feita dos ganhos da formação na produtividade das empresas. E o que os investigadores concluíram foi que factores como o grau de escolaridade e a experiência profissional são determinantes mas pelo que sugerem. “À partida, só quem é disciplinado e perseverante é que conclui uma licenciatura. Do mesmo modo, só quem reúne algumas destas características é que vai frequentar a formação profissional das empresas e tirar proveito dela.”
Para Paulino Teixeira, tornou-se assim claro que “não vale a pena estar a ‘investir’ em indivíduos que, aos 20 ou aos 22 anos, apresentam características desfavoráveis no mercado de trabalho, porque estes já perderam capital dificilmente recuperável”.
Por isso é que para este doutorado em Economia as políticas de requalificação profissional dirigidas a adultos, como o programa Novas Oportunidades, são pouco eficazes, na medida em que não conseguirão alterar as tais capacidades não mensuráveis que deviam ter sido adquiridas na infância e que serão determinantes no desempenho profissional.
“Se queremos proteger os mais desfavorecidos, o que temos que fazer é colocar as crianças destas famílias em colónias de férias para que se possam misturar com crianças de famílias favorecidas e beneficiar desse ‘caldo’ social”, preconiza, ao mesmo tempo que defende o reforço do ensino pré-
-escolar e uma aposta no alargamento da escolaridade obrigatória.”

Não faço ideia quando termina o processo em que as pessoas adquirem competências que lhes vão ser essenciais na vida adulta enquanto profissionais e que determinam ou não o sucesso profissional. Sei, contudo, que a formação profissional em adulto é absolutamente irrelevante e inútil se as pessoas não tiverem já as competências que lhes permitem aproveitar o sumo dos novos conhecimentos adquiridos. E quando os formadores e psicólogos falam em alterar comportamentos, desconfiem, querem vender o seu peixe, mas ninguém altera comportamentos na sequência da uma formação profissional; quando muito, pode decidir de forma diferente, se souber discernir a melhor forma de decidir, partindo das novas informações que a formação lhe forneceu. Em todo o caso, com muitas pessoas pode-se dar a formação que quisermos que não há, simplesmente, resultados. (E, a propósito, a obrigação de formação profissional de parte, acho que 10% do pessoal, estabelecida no código de trabalho Bagão Félix é apenas uma forma de obrigar as empresas a gastarem dinheiro sem retorno). Quando falamos de pessoas que não entendem a necessidade de dizer “bom dia” ou “boa tarde” a um cliente, ou que não têm pudor de contar em frente a clientes que não conhecem, durante conversas com colegas, os seus segredos de alcova – como tanto se encontra nas várias lojas portuguesas – há uma falta de competências básicas que não se resolvem com formação profissional.

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3 respostas a A inutilidade da formação

  1. PR diz:

    Tem toda a razão. Ninguém admite que o grande problema é a falta de educação, nos aspectos mais básicos e banais.

    Sem uma base de valores e regras de socialização, não há formação profissional (por muito boa que seja) que eduque quem nunca soube o que era ser educado.

  2. Maria João Marques diz:

    Claro. Com FP, os bons profissionais continuam bons e os maus continuam maus. Mas não é bonito dizer estas coisas.

  3. Einherjer diz:

    “O salário que uma pessoa receberá ao longo da vida está mais ou menos definido à chegada à idade adulta, segundo um estudo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.”

    AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!

    Apenas um nome: Armando Vara. E também os há honestos.

    O “estudo” da Faculdade de Economia de Coimbra é um valente alfinete de peito a chicago.

    E não, nenhum agente consegue saber num dado ponto quais os rendimentos que auferirá ao longo da sua vida. Isto é religião.

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