O fantasma dos regimes passados

Estive em Berlin em 2005. Não notei os contrastes entre a parte RDA e a parte RFA que, quem lá esteve pouco depois de 1989, me contava serem gritantes. Havia, na antiga zona comunista, ainda prédios de habitação tristonhos e feios e todos (quase) iguais – diferentes dos elegantes prédios aristocráticos que rodeavam o Tiergarten na parte livre – e vários edifícios da administração pública ‘democrática’ – recordo-me da minha confusão de criança com este nome de República Democrática Alemã, que o meu pai me explicava ser, paradoxalmente, a parte não-democrática da Alemanha; não sabia, então, que um dos instrumentos da guerra cultural da política é dotar de um nome agradável uma coisa em tudo diferente da realidade associada a esse nome – no estilo arquitectónico monolítico que a União Soviética ofereceu ao mundo. Que são actualmente uma mais-valia para a cidade, que, juntando à arquitectura mais clássica da zona RFA, às várias construções barrocas da área, exemplares Bauhaus e aos novos edifícios de arquitectura moderna (e a arquitecura moderna na Alemanha é, para mim, do melhor que se faz no mundo), se torna um museu de arquitectura.

Alguns pormenores contrastavam com outra cidade alemã que conheço bem: Frankfurt. Em Berlim não se viam os muitos imigrantes (sobretudo turcos, mas também portugueses ou até italianos) que são atraídos por Frankfurt. As empregadas de limpeza dos hoteis er am alemãs, em vez de imigrantes com turbantes dos sikhs (neste caso uma boa mudança, já que têm uma aparência bem mais asseadinha). Berlim, como todas as cidades da Europa central que se prezam, tem boas casas de música clássica e de Ópera; no entanto quem as frequenta (e lhes dá uso assíduo, como todos os habitantes da Europa central que se prezam e têm estas boas casas nas suas cercanias) está geralmente vestido com roupas fora de moda e gastas, ao contrário das multidões mais elegantes que se vêem nas boas casas de música e Ópera (sobretudo Ópera) de Frankfurt. Já lá havia as habituais lojas de marcas de luxo obrigatórias numa capital europeia, mas mais pequenas e posteriores às de Frankfurt. Enfim, pormenores de uma prosperidade q.b., quando comparada com a prosperidade fulgurante, evidente, até ostensiva de Frankfurt.

Sim, o espectro do comunismo ainda se fazia sentir em Berlim. Mas cada ano mais ténue.

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