A culpa é sua?

O Banco de Portugal publicou recentemente o seu boletim de inverno, que mais uma vez mereceu todo o tipo de análises menos aquela que interessa. Da esquerda à direita, as preocupações variaram da estagnação das importações ao aumento do desemprego, passando pela discussão filosófica se 0,7% de crescimento é bom por ser mais do que zero ou se é mau porque gostávamos que fosse mais.

Independentemente de se ter a visão meio cheia ou meio vazia do copo, surpreende-me que ninguém tenha a coragem de resumir o problema a quem não é economista ou político. E se tivéssemos que resumir o problema numa expressão, ela seria “estamos falidos!”.

Estamos falidos porquê? Porque a receita para crescer não pode ser posta em prática. Trocando isto por miúdos, o que nos dizem é basicamente que estamos a vender cada menos ao exterior em comparação com o que compramos, que cada vez nos endividamos mais, que cada vez este endividamento nos vai custar mais porque vai ser mais caro, e que no próximo ano menos pessoas (em proporção) vão estar a trabalhar. Logo, não só vão ser pagos menos impostos como vamos gastar mais em prestações sociais para que essas pessoas mantenham a dignidade que merecem. Por outro lado, dizem-nos também que se quisermos tornar o país mais rico temos que comprar mais, uma vez que o crescimento será conseguido essencialmente à custa do consumo e, logo, comprando mais. Com menos dinheiro que vamos ter, vamos ter que comprar mais carros, casas, televisões e telemóveis, que serão mais caros porque a inflação vai subir e os juros também. Como, se já temos a corda na garganta por causa do crédito excessivo que contraímos quando nos enganámos e pensámos que não íamos ter que pagar a factura? Ninguém sabe bem, mas isso agora também não interessa nada, como diria uma apresentadora de concursos pirosos.

O problema é que interessa, e muito! O país tem problemas estruturais gravíssimos, que vão desde a economia à política, passando pela educação, pela subsidio-dependência dos nossos empresários, pela nossa noção generalizada que pagar impostos é só para os totós ou para aqueles que não consigam enganar o fisco, para a justiça ou a ordenação do território (basta ver as causas de algumas cheias). Contudo, tal como o doente que não aceita a doença que tem, prefere aquele médico que lhe diz que está tudo bem enquanto o vai enchendo de medicamentos àquele que lhe diz frontalmente quais os sacrifícios que tem que fazer para se curar. Tal como o fumador, que por mais que saiba que o tabaco o vai acabar por matar, não consegue parar de fumar ao mesmo tempo que mantém a esperança de morrer só depois dos 90, enquanto escolhe ir fazer exames àquele médico amigo que compreende a dificuldade que sente e que portanto trata o assunto com subtileza.

Mas a culpa é nossa, de todos nós que não sabemos separar o trigo do joio e que deixamos que o objectivo da política seja apenas o voto, levando a que as estratégias do país continuem a ser desenhadas com horizontes temporais de 4 anos, menos de um quinto do plano de negócios de um simples aeroporto.

E se pensarmos bem custa pouco. Algumas horas a cada 4 anos são suficientes para que cerca de um terço de nós, principalmente os que têm alguma coisa a ganhar do meio desta desgraça toda, decidam a vida de todos os outros.

Se não está disposto a fazer este esforço, depois não chore sobre o leite derramado. Afinal, a culpa é sua!

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