É tudo uma questão de concepção da política…

As questões que têm vindo a público sobre Sócrates começam a ser preocupantes, não tanto pela relevância que encerram em si mesmas, mas pelo padrão de conduta que mostram.

Podemos discutir se nós portugueses somos um povo com memória de peixe, ou tolerante, ou permissivo ao abuso, ou mesmo de brandos costumes, mas certo é este tipo de casos não são novidade neste nosso cantinho plantado à beira mar. A verdade é que, só a título de exemplo, as nossas obras públicas derrapam sistemática e significativamente e, independentemente de quem está no Governo, ninguém parece querer saber. Quantos ainda se lembram da derrapagem orçamental de projectos como o CCB ou a Expo98? E quem se lembra o que aconteceu aos gestores públicos que tinham por incumbência tomar conta desses orçamentos? E dos que autorizaram construção de casas para si ou para amigos em zonas de reserva protegida, já para não falar do outro que tinha um sobrinho taxista milionário na Suíça? Provavelmente estaremos a falar de um total de, realisticamente falando, zero pessoas, os mesmos que daqui a um ano se irão lembrar desta novela dos submarinos que agora enche as páginas dos jornais.

Por este motivo talvez não valha muito a pena andar angustiado com cada um dos deslizes do nosso Primeiro Ministro (PM), porque se formos pragmáticos e olharmos de forma isolada nenhum destes incidentes é mais ou menos grave do ponto de vista ético do que a mão cheia de situações caricatas de que nos lembraríamos se começássemos a recordar os últimos 15 anos. Além disso, a verdade é que nenhum destes processos ainda sequer se chegou perto de um tribunal, o sítio onde em bom rigor estas questões deviam ser apreciadas.

Então onde é que está o problema? Se em bom rigor ainda ninguém foi capaz de provar nada e se tantos outros já fizeram tão mal ou pior e nem por isso sofreram grandes consequências, porque motivo devemos estar agora a remexer neste passado que tão caro nos pode custar em termos de reputação do país, principalmente nesta altura de crise e com as possíveis ramificações das trafulhices gregas?

O problema neste caso é que “o todo” começa a ser maior que a soma das partes: começou por ser o curso tirado ao Domingo, depois o fripor, passou-se o caso TVI com o seu jornal trasvestido e as suas duas comissões de parlamentares pouco ocupados que entrevistam notáveis, o Caso Mário Crespo, a carta à direcção do Jornal Público e aparecem agora mais duas dezenas de amigos inoportunos que lhe pedem para “desenrascar” uma coisa que no mínimo não devia fazer, mas a quem foi incapaz de negar um favor, vítima do seu “coração de ouro” que falou mais alto. Não fosse isto suficiente, cada um destes temas tem sido gerido, pelo próprio ou pela respectiva equipa ministerial (de quem Augusto Santos Silva é exemplo suficiente) com a subtileza de um rinoceronte numa loja Vista Alegre.

Sendo um homem da província, local de inúmeros ditados popularuchos, o nosso PM devia saber que à mulher de César não basta ser, é necessário parecer e portanto mesmo sendo inocente, que é, pelo menos até agora, esta vida de esquema manhoso em esquema manhoso não faz nada bem à sua imagem e, mais do que isso, não faz nada bem à imagem do país.

No fundo, é tudo uma questão de concepção daquilo que deve ser a vida política. Ou bem que é uma decisão de carreira, e nesse caso aplicando-se os princípios do Código de Trabalho o nosso PM só deve poder ser “despedido com justa causa” (que é como quem diz depois de alguém conseguir provar qualquer uma das acusações que lhe fazem), ou bem que é a prestação de um serviço ao bem comum e à causa pública.

Como adepto desta segunda visão, e tendo em conta que a teia de esquemas em que o PM se vê envolvido podem custar caro em termos de reputação ao país que supostamente devia servir, principalmente nesta altura de crise, talvez esteja na altura de se pedir a esta equipa que pare de se servir para passar a servir a causa pública e procure conter os danos que já causou, a bem de todos, desaparecendo por uns tempos.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Genéricos. ligação permanente.

Uma resposta a É tudo uma questão de concepção da política…

  1. airton nunes filho diz:

    u nao entendo nada disso

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s