Da cultura política do monólogo à cultura política da colaboração

Nem sei bem por hei-de onde pegar nesta ideia que me surgiu ao ler um post de Rui A. no Portugal Contemporâneo sobre Salazar e o cardeal Cerejeira, imagine-se! De certo modo, esta ideia já me anda a inquietar os neurónios há uns tempos, ao observar como a nossa política se reduziu à personalidade do Chefe, mostrar quem manda, adivinhar o que o Chefe quer, como agradar ao Chefe… Esta também é a dimensão da nossa mediocridade. Enquanto vivermos nesta cultura política centrada na personalidade do Chefe, actualmente definida por uma autêntica política do monólogo, não sairemos da situação desastrosa onde estamos metidos. E talvez seja esta, a habituação a uma cultura política centrada na personagem principal do filme, sem a intervenção ou colaboração das outras personagens, uma das razões para esta perplexidade actual em relação ao silêncio do PSD ou à sua fase de unidade e colaboração.

Agrada-me pensar que, pela primeira vez em muitos anos, desde Soares e o cavaquismo, iremos iniciar uma nova cultura política, a que eu chamaria de colaboração, centrada nos desafios, nas tarefas, num caminho possível a desenhar-se à nossa frente. Agrada-me pensar que este silêncio do PSD não tem apenas a ver com a expectativa da proximidade do poder, mas com a consciência da enorme responsabilidade e da real dimensão dos desafios que temos pela frente. Agrada-me pensar que pode já estar em esboço uma nova perspectiva de gestão do poder, em que as personagens fundamentais da nossa vida colectiva, os cidadãos, não são meros figurantes tratados como eleitores e contribuintes, mas como adultos responsáveis a quem se deve pôr ao corrente da sua situação real.

Sim, uma cultura política que responsabilize e mobilize os cidadãos, como nos mapas das cidades que percorremos pela primeira vez, Você está aqui, para nos orientarmos no percurso a seguir. Depois definem-se coordenadas, trajectos, percursos, e as consequências previsíveis, os cenários. Sem saberem onde estão, e com o que podem contar se forem por este ou por aquele percurso, como é que os cidadãos poderão estar receptivos às medidas que os vão penalizar e limitar ainda mais, medidas que a muitos irão mesmo condicionar à pobreza e a muitos outros manter nessa condição? Como irão sequer compreender os sacrifícios que lhes serão pedidos? Mas sobretudo, mostrar-lhes que se irá fazer tudo para evitar o desperdício da sua energia, do seu trabalho, dos seus sonhos, da vida adiada, arrumando a casa pública, o Estado. Cortando nas suas despesas, agilizando as suas funções, racionalizando as suas competências, substituindo investimentos supérfluos por investimentos essenciais, redefinindo prioridades. Esse sinal terá de ser dado.

É esta a ideia que me surgiu ao ler o post de Rui A., e de muitos outros posts na blogosfera, que apontam para uma nova cultura política. Se o PSD actual a conseguir assimilar e incorporar, ainda bem. Evitar-se-á certamente muito tempo perdido, e muito sofrimento também. Querem-nos fazer crer que não somos gregos quando já há sinais evidentes que o seremos muito em breve. Penso que o PSD estará preparado para assumir a sua responsabilidade. As minhas dúvidas estão no Presidente, que penso tudo fará para não comprometer a sua reeleição, e nos eleitores, que duvido que estejam receptivos para ouvir a verdade, habituados à cultura do monólogo do Chefe e à ficção nacional.

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