Incursões pelo fariseísmo

Diz o maradona que este post, que o Carlos já aqui fez o favor de iluminar a contradição que contém, faz para ele, como ateu, todo o sentido. Eu acredito que fala sentido para um ateu, mas acrescento que para todos os católicos dotados de bom-senso não faz sentido nenhum. Não tanto pela parte da tolerância de ponto aos funcionários públicos (eu concordo com a tolerância, mas não me repugna que um católico considere que estamos à beira da bancarrota e que não há que pagar o dia a quem vai ‘ver o Papa’ ou a quem não vai mas aproveita para fazer outras coisas que não trabalhar), mas sobretudo pela qualificação da fé de quem só vai ‘ver o Papa’ se tiver tolerância de ponto.

Num primeiro plano: a fé de cada pessoa é algo que reside na sua mais impenetrável intimidade e duvido que alguma vez possa ser inteiramente partilhada, mesmo com os que melhor nos conhecem. Pressupõe sermos absolutamente honestos sobre nós próprios, sobre as nossas fraquezas, limitações, defeitos, pecados, negrumes, maldades, medos, aquilo de que não nos orgulhamos ou de que nos envergonhamos. Se as qualidades e sucessos apreciamos exibir, já resguardamos o que é mais sombrio e os fracassos. Duvido que seja possível esse nível de verdade sobre nós se não (e apenas) diante do imenso, intenso, infinito, esmagador, curativo, avassalador amor de Deus. Sendo a fé algo tão íntimo e que as muitas manifestações públicas não permitem escrutinar, parece-me uma evidente imbecilidade julgar a qualidade da fé de outra pessoa, a propósito do que seja.

Num segundo plano, convoco a parábola do fariseu e do publicano. O fariseu, cheio de si, de soberba, de orgulho da sua irrepreensível fé, congratula-se por não ser como o publicano, que tem a clarividência de perceber como é imperfeito e, percebendo-o, sabe colocar-se diante da misericórdia de Deus, que é onde qualquer católico se deve colocar. Aplicando isto ao caso concreto, perante Nosso Senhor todos temos uma fraca fé e as diferenças relativas entre elas são indistintas quando a bitola é o amor de Deus. É ridículo e de um fariseísmo que fica mal fazer apreciações sobre a fé de outrem.

Num terceiro plano, mais concreto: não sei o que pode passar pela cabeça de alguém para considerar fraca a fé de uma pessoa que não pode tirar férias no dia da visita do Papa à sua cidade – porque, por exemplo, tem de fazer coincidir as suas férias com os períodos em que colégios e infantários e creches fecham e não têm onde deixar os filhos – e também não está em condições de dar uma falta injustificada e perder a remuneração respeitante a esse dia – ou porque o ordenado já não é abundante ou porque os encargos financeiros são avultados. Isso é uma imbecilidade e assusta que venha de alguém que já teve responsabilidades governativas e é muito próximo de quem pode vir a ser primeiro-ministro: porque revela não ter qualquer noção da realidade da vida das pessoas que governou e pode vir a governar.

Por mim, não faço qualquer juízo sobre a fé de um católico que só vai participar numa missa presidida por Bento XVI se tiver tolerância de ponto. Também – e relembro que ‘ir ver o Papa’ não faz parte das obrigações de um católico – não julgo a fé de um católico que antipatize com Bento XVI e não queira participar nesta visita. (Eu própria, que tinha uma embirração de estimação por João Paulo II, só estive em Fátima em 2000 porque fui com vários amigos, que incluíam alguns jesuítas, em peregrinação durante a noite anterior pela Serra d´Aire, momentos que foram para mim muito mais proveitosos que a Missa presidida por João Paulo II). De resto, nem sequer julgo a fé de quem escreve disparates sobre a fé alheia. (Já quanto às faltas de educação, aos vernizes finos que estalam com facilidade, aos lamber as botas a quem interessa, aos namoros com todos os partidos que podem atribuir um cargo ou outro, às ausências de noção de ridículo no que se diz e no que se escreve, a história é diferente).

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