Seremos um povo condenado?

Os portugueses têm à primeira vista tudo aquilo que um povo numa sociedade moderna não deve ter se quer progredir.

Numa altura em que cada vez mais a palavra sinergia é o buzzword, em que o todo é mais do que a soma das partes que o compõem, em que o trabalho em equipa entre todos os níveis da organização se assume como uma necessidade competitiva, os portugueses parecem condenados. De facto, as nossas características enquanto povo não nos deixam à primeira vista razões para ficarmos optimistas: somos um povo com uma altíssima distância ao poder, para o qual olhamos de forma tanto submissa quanto hostil. Para os portugueses, os detentores do poder são figuras a quem se deve uma certa deferência institucional (veja-se a multiplicidade de formas que as pessoas podem usar para interagirem umas com as outras, como os títulos académicos, alguns mesmo aplicados por presunção) mas que ao mesmo tempo reservam para si a maior fatia do bolo (lá diz o ditado que quem parte e reparte fica com a melhor parte) e por isso devem ser vistos com desconfiança, embora sejam pessoas com que nos devamos relacionar bem, não vá sobrar mais qualquer coisa para nós.

Isto faz com que em Portugal uma pessoa não valha apenas pelas suas valências (actuais e potenciais) mas por outros factores menos visíveis como a sua lista de amigos e contactos, muitas vezes função da família onde nasceu ou da escola onde andou, o que nos leva à segunda característica que nos penaliza: o colectivismo.

Ao contrário de outros povos como os anglo-saxónicos, em Portugal há pessoas que ocupam lugares de destaque com a explicação (perfeitamente aceite socialmente) que têm muitos amigos e conhecem muita gente, pelo que mesmo sendo incompetentes devem ocupar lugares importantes nas organizações porque “abrem muitas portas”. Quando por esta altura alguém mais distraído poderia pensar que, se sabemos que somos assim devíamos começar a pensar em mudar, eis que aparece a terceira característica que nos aponta no sentido oposto, ao impedir que isto aconteça: detestamos conflitos!

O português tem aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa tão bem definiu como o “nacional porreirismo”. Queremos estar bem com todos e que todos gostem de nós. Se esta baixa conflitualidade e vontade de agradar faz com que sejamos vistos como um povo simpático e amistoso pelos turistas, quando é para trabalhar deixa-nos em desvantagem. É que esta necessidade de estarmos bem com todos leva a que o façamos mesmo quando temos razão, não levantando questões contundentes para não levantar problemas, relativizando o conceito de injustiça ou evitando que as questões que podem ter consequências mais graves sejam aprofundadas e levadas às últimas consequências. Esta falta de firmeza e determinação leva a que alguns de nós tenha lamentado em algum momento viver num país de brandos costumes, pouco dignificante dos corajosos navegadores que há alguns séculos atrás se fizeram ao mar. Para piorar, com se ainda fosse possível, somos um povo que vemos com maus olhos a incerteza e a falta de segurança, motivo pelo qual tendemos a criar um labirinto de burocracia, normas e procedimentos à nossa volta tão complexo que dá azo que a que possamos escolher o melhor caminho para o percorrer, que é como quem diz, escolher as normas que devem ser aplicadas baseados no nosso “bom senso” (afinal, fomos nós que as criámos, certo? Então devemos poder escolher em cada momento de quais gostamos mais, e se ainda por cima elas se contradizem, não há certamente problema algum). A cereja no topo do bolo é dada pelo facto de termos uma auto-estima pessimista e sermos policronistas, que é um nome técnico para não termos de nos chamar confusos e desorganizados. Para nós o tempo abunda, por isso planear é uma perda de tempo. Além disso, se depois de planearmos vai aparecer alguma coisa que nos vai obrigar a repensar as coisas e planear outra vez, planear para quê? Quando as contrariedades aparecerem pensaremos nelas (que é outra forma de dizer que deixamos tudo para a última hora).

Estaremos então condenados ao fracasso? A ser colonizados por um povo a sério? A pergunta é de resposta difícil porque, como em muitas outras coisas, não há uma resposta certa. Por um lado, a nossa distância ao poder é fruto da nossa baixa educação, pelo que é de esperar que continue a diminuir à medida que vamos educando as nossas crianças e colocando-as todas no mesmo patamar (antes, só os chamados “ricos e poderosos” tinham acesso à educação). Este investimento em educação terá também tendência para reduzir um pouco o nosso extremo colectivismo, porque à medida que cá se fixem empresas com outras formas de ver o mundo ou à medida que os nossos emigrantes qualificados aumentem, o contacto com outras realidades vai abrir novos horizontes. Além disso, o facto de sermos um povo colectivista não é mau por si só: isto leva-nos a emigrar muito facilmente, já que os nossos emigrantes facilmente encontram apoio nas comunidades onde se vão fixar. Já a nossa tendência para estar bem com todos e evitarmos os conflitos não tem que se resolver por mudarmos e passarmos a ser mais directos, uma vez que uma das nossas vantagens é conseguirmos em muitos casos encontrar um compromisso entre as partes, exactamente porque valorizamos os aspectos relacionais e afectivos das situações. Infelizmente, o mesmo não se passa com a nossa tendência burocrática como forma de evitar a incerteza, onde devíamos tentar mudar. Já o nosso policronismo pode ser uma vantagem competitiva: quando comparados com povos muito formais no pensamento, os portugueses fazem-nos parecer uns atadinhos na altura de resolver situações caóticas e pouco estruturadas. Somos um povo imaginativo e polivalente e essa é uma característica em que devemos apostar para nos diferenciarmos. À medida que os resultados forem surgindo, temos de embarcar numa onda de optimismo, já que a nossa auto-estima pessimista tem que ser contrariada através da criação de uma dinâmica de sucesso.

Assim, concluindo, apesar de ainda termos um longo caminho a percorrer, estamos a dar alguns passos que nos podem transmitir algum optimismo na mudança. É uma questão de cada um de nós agora fazer a sua parte.

Como? Adoptando uma postura de optimismo e criando uma dinâmica de sucesso, sendo rigorosos tanto connosco com os outros, fazendo um esforço adicional por planear, reduzindo os formalismos, sendo objectivos na avaliação dos outros e recompensando-os pelo seu real contributo para os resultados, reconhecendo os melhores, encorajando a ambição (não é crime nem pecado, nem parece mal querermos vencer) e dando o exemplo no cumprimento das normas que nós próprios definirmos.

Hoje, dia 1 de Maio e “Dia do Trabalhador”, acho que deviamos todos pensar nisto.

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