O Presidente, o Parlamento e o governo: um impasse republicano

A festejar o centenário e num verdadeiro impasse, que situação para o regime republicano! E que situação para um país em estado de nervos, e qualquer dia em estado de pânico. É claro que esta minha teoria pode estar errada, é apenas o resultado de observação e dedução. Vou juntando as peças, às vezes encaixam outras não. Sim, há muitas peças que não encaixam em lado nenhum, e tenho de recomeçar tudo de novo.

O Presidente: Finalmente falou. Não disse muito. Mas deixou uma mensagem clara: parar com as grandes empreitadas socialistas e privilegiar os produtos transaccionáveis.  Que foi de imediato rejeitada pelo governo. Não da forma malcriada de uma outra vez em que o Presidente se referiu às medidas do governo, num encontro julgo que de empresários, e em que o PM veio logo dizer que o Presidente não se devia meter nos assuntos do governo e que pelo menos ele não tinha tabus. Bem, tabus tivera um pelo menos, o do Referendo ao Tratado de Lisboa. Mas este é o nível do programa, onde deixaram de existir relações institucionais dignas desse nome.

O Parlamento: numa composição quase impossível de gerir politicamente, um verdadeiro impasse. Uma maioria de esquerda, e de uma esquerda que não está minimamente sintonizada com a realidade. Impasse que tem sido utilizado pelo governo para continuar a agir como se ainda estivesse em maioria absoluta. E é neste contexto de grande fragilidade e vulnerabilidade que o PSD saído das Directas vai dar uma mãozinha, a da credibilidade, a um governo que a perdeu há muito. Dá para acreditar? Mesmo que muitos entendidos digam que foi um gesto de patriotismo, para nos defendermos dos ataques de especuladores, ainda não me convenceram. Temos sim é de nos defender deste governo que nos trouxe à falência e que insiste em nos destruir completamente. Assim não vamos lá. Quando mais precisamos de políticos com uma visão e percepção da realidade fora do comum, e com a coragem e entusiasmo para nos inspirarem a iniciar um novo capítulo histórico, um caminho a ser por todos desbravado, vemos a continuidade da lógica do sistema. É que o sistema tem formas de se defender. Já repararam que os políticos parecem formatados numa máquina partidária que mantém tudo como está? Qualquer político que surja com rasgos e criatividade, é logo submergido ou neutralizado?

O governo: Não me sai da cabeça uma frase de Campos e Cunha e que li n’ O Cachimbo de Magritte: Tanto erro de política orçamental ultrapassa a incompetência óbvia e legitima outras suspeitas. E esta insistência nas grandes obras públicas já ultrapassa o domínio da incompetência. Há outros sinais de desorientação lá dentro, mas não tenho perdido muito tempo a observá-los porque, de qualquer modo, não acredito que o governo se aguente por muito mais tempo. Talvez eles próprios já estejam a preparar a sua saída airosa com um gesto teatral. Qualquer alibi a que se agarrar para se desculpabilizarem. Qualquer frase dramática, não nos deixam governar, por exemplo.

A minha grande dúvida é esta: como é que a chamada sociedade civil se pode defender de impasses destes, de governos destes e de parlamentos destes?

Há quem nem tenha uma opinião muito positiva da nossa sociedade civil, que não interiorizou a noção de democracia, de liberdade, de respeito mútuo, de colaboração, de responsabilidade cívica, esses valores que permitem um equilíbrio saudável no grande grupo. Sim, isso explicaria muita coisa, por exemplo, como é que são rápidos e eficientes em situações-limite, de grande dramatismo, mas não num dia-a-dia e em actividades que exigem muita dedicação e paciência. Sim, os portugueses parecem ter assimilado bem as características da sociedade-espectáculo: todos gostam do seu momento de glória. Querem ver que nos tornámos nuns “ídolos” repentinos, à semelhança do PM e das suas corridinhas para as câmaras? Em que a imagem é que conta, a substância não? Se for esse lado pueril o que a caracteriza, bem, nesse caso, a sociedade civil está mesmo num impasse, porque para sair dele precisávamos de uma inteligência colectiva.

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