Por uma política inteligente e criativa

Pensei nisto ao ver pela terceira vez (!) este filme magnífico, Amazing Grace. Que precisamos de políticos assim, que colocam os interesses do país à frente dos pessoais, com valores sólidos, referências intemporais, a noção do valor intrínseco de cada indivíduo, e da fraternidade universal. Wilberforce inspira-nos. Pelas causas que defendeu, como a abolição da escravatura, o direito à educação, a melhoria dos cuidados de saúde, e tantos outros. Era avesso a revoluções, acreditava na possibilidade da mudança gradual. Abominava qualquer tipo de violência. E amava a botânica. Há, aliás, no filme uma cena deliciosa: Wilberforce é surpreendido pelo mordomo sentado na erva molhada, e explica-lhe que preferia ficar ali a olhar as teias de aranha do que ir para o parlamento onde o esperam mil e uma tarefas. Diz-lhe ainda que Deus o tinha encontrado. O mordomo senta-se ao seu lado e cita-lhe, a propósito, uma frase de Francis Bacon. Quando vou limpar a biblioteca não me limito a limpar o pó dos livros… Sim, Wilberforce hesitou antes de se dedicar à política, teria preferido a meditação da vida eclesiástica. Alguém lhe disse que podia conciliar as duas, e agir sobre a realidade. Além do seu amigo Pitt, que será primeiro-ministro, também o seu pregador de infância, comerciante de escravos arrependido, o convence a agir, não se pode isolar. Mas alerta-o para o preço emocional que isso implica. Na verdade, Wilberforce não passou imune pela visão de tanta dor, a saúde ressentiu-se.

Mas onde é que entra aqui a inteligência e criatividade políticas? Wilberforce recorreu às Petições e a uma informação pormenorizada das condições absolutamente desumanas de transporte de escravos, empilhados nos navios, e do trabalho escravo na refinação do açúcar. Recorreu ainda a todas as formas criativas para publicitar a sua mensagem. Além do livro de Equiano, um escravo sobrevivente, com o seu relato em primeira mão, outras estratégias que seriam as equivalente às actuais t-shirts com mensagens, ou a ferramentas de divulgação como o YouTube, Facebook, etc. É certo que, já no tempo de Wilberforce, as Petições e a divulgação da mensagem não se revelaram suficientes. Passada mais de uma década, tiveram de recorrer à inteligência e criatividade mais apuradas, utilizar as próprias regras do sistema, isto é, aproveitar uma falha no sistema, descoberta por um advogado. Claro que para chegar a esse ponto, tiveram de desenvolver a paciência, uma qualidade muitíssimo importante em qualquer bom político. Saber esperar, estudar o momento certo para avançar, analisar cada situação ao pormenor, estar sempre bem informado, ver relatórios, recolher informação, comparar dados, etc. A paciência é a base, a meu ver. Nunca agir impulsivamente ou por motivos egocêntricos, é um erro. Para o próprio e sobretudo para o grupo que representa, ou para o país directa ou indirectamente. E se um político julga que só quando ascende ao poder de governar, é a sua acção fundamental para quem nele votou, desengane-se. As suas opções, a estratégia escolhida, a sua postura, é muito mais importante do que imagina. Vejam por exemplo a actual composição do parlamento português. Uma fórmula impraticável: com o partido do governo em maioria relativa a comportar-se e a agir como se ainda tivesse maioria absoluta; o PSD saído das Directas a delapidar o capital de uma oposição credível e, dessa forma, a esmorecer a esperança dos que nele acreditaram e dos que lhe deram o benefício da dúvida; o CDS a manter sozinho uma verdadeira oposição apresentando alternativas às medidas propostas pelo governo; o BE embevecido com as grandes obras públicas e com propostas irrealizáveis e o PCP a apoiar as ditas obras de forma tímida e envergonhada, e a promover as eternas “formas de luta” inconsequentes. É esta a fórmula parlamentar que não nos serve, porque nos vai levar à ruína.

Lá voltei a falar da política nacional, em vez de pegar em temas mais animadores. Talvez se eu visse um sinal qualquer, uma possibilidade de mudança de registo deste filme português, mudava de tema. Hoje, por exemplo, pegava nas eleições do Reino Unido, que me alegraram esta madrugada (estive a acompanhar os resultados mas só até às 2 e tal). Sim, confesso, de há 4 anos para cá tenho acompanhado alguns discursos que David Cameron foi proferindo sobre diversas áreas, e entrevistas em que revelou estar muito bem informado e documentado, com propostas credíveis para melhorar o sistema. É um exemplo de político inteligente e criativo, a meu ver. E tem uma incrível paciência. Nem sequer estou aqui a considerar se para nós esta mudança de poltica no Reino Unido vai ser benéfica ou não. O seu eurocepticismo pode ainda sair-nos muito caro. Mas também é legítimo pensar que cada governo trata primeiro dos seus cidadãos, é essa a sua obrigação. Esta ideia da solidariedade oportunista passa a caducar quando não se dá sinais de a merecer, não acham? É uma espécie de chantagem embrulhada em papel celofane azul com estrelinhas luminosas, é um discurso que só envergonha quem a ele recorre. Muito em breve cá teremos vozinhas assim, a pelar-se pela solidariedade europeia. E entretanto, andam a brincar aos comboios, às auto-estradas e às pontes… Já viram? Voltei ao filme português… Está visto. Preciso mesmo de ver um sinal, um único, e mudo de tema. Prometo.

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