Quando a reflexão e o debate democrático já escapam completamente às altas instituições políticas do país e às personagens de que se fala nos jornais e nas televisões, é reconfortante verificar que o debate ainda existe na blogosfera e noutros locais de comunicação de ideias. Ainda há espaço para respirar neste espaço comum. Muito se diz da blogosfera, do Facebook, e de outros espaços virtuais, e muito do que se diz é exacto: também servem para propagar a mentira, o ódio, a inveja, o mal-dizer mesquinho. Também servem para as várias dimensões do mal, desde anular ou neutralizar quem pensa pela sua própria cabeça e não é permeável à nova relativização ética e moral que agora serve a ditadura do pensamento único. Uf!, esta tirou-me o fôlego. O mal tem outras dimensões e todas perversas e destrutivas. Segue sempre a lógica da morte, sempre. É só segui-la, a lógica da morte e está lá a sua face perversa. A sua linguagem é a da agressividade, do ataque, da humilhação do outro. Não sabe dialogar, negociar, debater, reflectir. É que reflectir é um perigo, por isso ataca primeiro, antes que reflectir se torne um hábito, e surja respeito pelo pensamento livre.
E tudo isto para introduzir aqui um debate de um tema ainda quente, de tão recente e de tão polémico: a promulgação presidencial do casamento de pessoas do mesmo sexo. Polémico pelo tema em si, polémico pelo timing escolhido (logo após a visita do Papa Bento XVI a Portugal), e polémico sobretudo pelos argumentos apresentados pelo Presidente e pela sua decisão final. O debate seguiu na blogosfera – o espaço que conheço melhor – mas não me admira nada que continue no Facebook, porque é um tema que envolve a vida social, a nossa organização colectiva, e que antecede as causas fracturantes que se seguem: a eutanásia, o suicídio assistido, o testamento vital (cruzes credo, que ainda nos antecipam o prazo de validade…) Mas voltando à promulgação desta nova modalidade de casamento, o debate mais interessante passou-se aqui:
1. via Blasfémias, um post do blogue A Revolta: A propósito do veto – O enterro dos valores
2. No Cachimbo de Magritte: Crónicas da Renascença: Consciência e Circunstâncias
3. Ainda no Cachimbo de Magritte: Deus nos proteja dos católicos
4. No Corta-fitas: A promulgação do Casamento Gay por Cavaco Silva: eleitoralismo Republicano
5. Ainda no Corta-fitas: Decadência
Há pessoas que se enebriam pela sua auto-importância, perdem a noção da realidade e das proporções, a noção da transitoriedade da vida, da insignificância da nossa história no grande plano, no tempo-espaço universal, da nossa enorme fragilidade e vulnerabilidade, e de como tudo isso torna significativa e misteriosa a própria vida, essa energia vital, esse milagre da existência. De como o respeito por todas as criaturas se inscreve em todas as nossas células vivas desde o berço, desde a nossa dependência inicial à nossa progressiva autonomia. De como o respeito por todas as criaturas é fundamental para poder decidir sobre a vida de outros, a organização das suas existências. É uma responsabilidade enorme, um desafio imenso! Não sentir isso revela uma incapacidade para gerir o destino de outros, de uma comunidade, de um país.