De que Presidente precisamos?

A realidade tem diversas camadas, já o sabemos. Há camadas de realidade, e muitas delas são-nos inacessíveis. Há até quem defenda que não estamos preparados para ver a realidade mais subterrânea. Pois. Isso é muito bonito quando não está em causa o nosso destino mais próximo, refiro-me ao nosso destino colectivo. Esse paternalismo do aceita o que está que pode vir aí ainda pior pode ser um limite aceitável num outro regime mas inaceitável em democracia. É isso que a democracia tem de incómodo: insistimos em pensar e analisar as coisas, os factos, os actos, os gestos, as omissões, as iniciativas, utilizando a nossa observação atenta e mantendo os neurónios a funcionar. Podem até, paternalmente, como quem nos tenta proteger de nós próprios, que não somos lá muito inteligentes. Mau argumento e péssimo sinal. A partir daí sabemos que tocámos num ponto sensível e que alguma coisa de errado está lá por trás. As crianças sabem isto, são as maiores farejadoras da realidade que eu conheço, captam-na a léguas de distância, são rápidas e perspicazes, o seu pensamento ainda não foi domesticado pela educação, pelos textos rígidos, pela formatação lógica da nossa espécie. O seu pensamento é analógico antes de procurar a causa-efeito em tudo, já percebem que há várias variáveis em jogo, e tudo isso intuitivamente.

Não tendo já ao meu dispor essa vivacidade e perspicácia infantil (snif), ainda assim mantenho alguns neurónios a funcionar. E não me conformo com os limites que tentam colocar à minha frente: o mal menor. Se para um destino pessoal isso já é uma expectativa horrível e desesperante, porque é que havemos de a considerar como aceitável quando se trata de um colectivo, uma comunidade, um país? E ainda por cima um país fragilizado e desmoralizado como o nosso? É precisamente por estarmos nesta situação precária a todos os níveis que não nos podemos reduzir à hipótese do mal menor.

De que é que o país precisa? Ouço as várias versões de uma visão para o país mas ainda nenhuma me empolgou. As únicas vozes que eu vi erguer-se no tempo em que era incómodo falar, vozes verdadeiramente livres, foram a de Bagão Félix e de Medina Carreira. Mais timidamente, mas ainda assim certeiro, Campos e Cunha. É nessas vozes que eu confio hoje. O que eu vi foi o silêncio generalizado. E pior que o silêncio, vozes de apoio e de elogio em relação às opções, ao caminho escolhido pelo governo de maioria absoluta socialista, e o silêncio em relação à grande mentira eleitoral de Setembro. Ninguém em lugares de responsabilidade se arrepiou com aquele número do défice?, da dívida?, do desemprego real?, nem com o entusiasmo com o crescimento? Ninguém em lugares de responsabilidade se arrepiou com as críticas a Manuela Ferreira Leite durante a campanha, só porque ousou dizer a verdade sobre a nossa situação?

É neste triste cenário que teremos de reflectir, julgo eu: de que Presidente precisamos nós? É oportuno e perfeitamente legítimo em democracia. É provável que ninguém queira avançar contra o actual Presidente. Compreende-se. Mas o país é que perde. Porque já se percebeu que o actual Presidente foi outro grande equívoco para a direita e mesmo para o centro direita. Cooperou com tudo o que consideramos inadmissível, sem pestanejar. Só reagiu quando lhe tocaram nos poderes presidenciais e quando houve um happening esquisito lá por Belém. Nessa altura, lembrou-se de falar aos portugueses, e nem foi para lhes falar da sua situação difícil, que estava atento, que se lembrava dos cidadãos, que era para isso que tinha sido eleito, não, foi para lhes falar do happening esquisito. Para desviar as atenções mediáticas do happening utilizou a Igreja e o Papa (como vêem, é injusta a acusação de que é a Igreja que não sabe distinguir os territórios) e informou o país, antes do acordado com o Patriarcado e com a Santa Sé, que o Papa viria a Portugal. E durante a visita do Papa colou-se em pose de católico e de peregrino para, logo que viu o Papa em Roma, promulgar mais uma lei fracturante. Mas esta é apenas a camada da realidade mais visível. Para aceder à segunda camada, teremos de fazer rewind: afinal onde começou a caminhada do actual Presidente para Belém? O que a moveu? Foi uma ambição egocêntrica (como os outros candidatos actuais, Alegre e Nobre) ou foi pelo país? Qual é sequer a sua ideia de país? Será a mesma dos socialistas, esse país de sucesso plastificado? De hipermercados, estádios de futebol, pontes, auto-estradas e TGVs? De mega-cidades no litoral e o interior desertificado? Com as populações da raia a ir ao médico e às compras a Espanha? De malta modernaça que não respeita a tradição, os valores, as regras de convívio saudável, mas consome acriticamente todas as ideias relativistas do pensamento único? Qual é afinal a sua perspectiva do papel de um Presidente? O pragmatismo do relativismo moral? É que foi isso que emergiu da declaração da promulgação da lei do casamento de pessoas do mesmo sexo. Será assim com a eutanásia e as várias versões à volta da morte antecipada?

De que Presidente precisamos? De um Presidente com energia vital, estável, consistente, coerente, estruturante. Que conheça bem o país, que pense no país e nos seus cidadãos em primeiro lugar, que tenha uma visão para o país, um caminho viável, que defenda a sua soberania. Que seja factor de unidade e de coesão social, fundamentais em tempos instáveis.

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3 respostas a De que Presidente precisamos?

  1. Henrique Pontes diz:

    Tenho-lhe a dizer que gostei do seu último “exercício de democracia” que fez. Hoje não me fica indiferente a sua opinião. Começo por dizer que não sou a favor de algumas opções do Prof. Cavaco. Porém, parece-me que a perceptiva da maioria dos portugueses sobre o papel do Presidente ou é de ignorância ou é exagerada. O PR na organização politica-administrativa do Estado português tem uma função negativa, simplesmente não tem iniciativa legislativa, é um travão político. Para além do veto (que pode ser superado), a sua posição resume-se a uma integração funcional inerte, como um mensageiro, em que seus poderes estão dependentes dos restantes: não lhe adianta ter energia, conhecer o país e seus cidadãos ou pensar nestes. Não se pode pedir uma acção transversal para um órgão quase representativo, quando tudo o que lhe chega provém do Governo ou da AR. O problema não está nem nunca esteve no perfil old-fashion do Prof. Cavaco, ou no que este promulga e veta, o problema está em quem dirige a política que lhe chega ás mãos.

  2. agfernandes diz:

    Henrique
    Então estamos na mesma: nem como travão, nem como mensageiro…
    Nos anos 80 o Cid concebeu uns cartoons intitulados “Eanito el estático” em relação ao Presidente Eanes… Como diria agora do actual Presidente? “Cavaquito el bloqueado”?
    A energia vital é fundamental para inspirar à acção. Conhecer o país e os cidadãos é fundamental para saber quem representa afinal, e como comunicar a mensagem.
    Mas concedo que talvez tenha interiorizado uma ideia ideal de papel de um Presidente.
    Ana

  3. CarLoS diz:

    O Presidente da República fez uma coisa extraordinária disse que era contra a lei que promulgou, ou seja, disse que o tal “travão” democrático – que é o seu cargo – afinal não existe. Ou seja, mostrou a irrelevância do cargo que ocupa, e também a sua pouca coerência.
    E quando se voltar a candidatar, não saberemos qual dos propósitos do seu progarma será para cumprir, uma vez que tanto pode cumpri-los … como não. Quando cumprir, é porque sim, e quando não cumprir, é por “ética de responsabilidade”. Parece um miúdo da escola a justificar as faltas. Estamos feitos.

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