É oficial, passámos da aldrabice à irresponsabilidade. Deus nos ajude a evitar a estupidez

O ataque da Telefónica à PT pela sua posição na Vivo é a prova que em mercados livres cash is king. Quando o preço de uma participada representa 90% do valor de mercado da participante, fica automaticamente demonstrado o seu valor estratégico enquanto centro gerador de oportunidades de crescimento.

Contudo, mesmo estando todos de acordo que a grande fatia do preço de uma empresa está no valor actual das suas oportunidades de crescimento, e mesmo passando ao lado das manhosices socráticas e do tradicional virar-o-bico-ao-prego e dizer que todos sabiam que se ia usar a Golden Share quando dois dias antes se dizia indeciso, algo que infelizmente já não espanta ninguém, usar a Golden Share do Estado neste negócio foi simplesmente estúpido e irresponsável.

Se o Estado queria dar a sua opinião no negócio devia ter ido a jogo enquanto accionista, fosse sozinho ou através da constituição de uma força de bloqueio, nomeadamente através da posição que detém na CGD, influenciando o seu voto e, indirectamente, o de outros accionistas. Carregar no botão de pânico e lançar esta arma de destruição maciça é que nos pode acabar por sair a todos bastante caro, por algumas razões muito simples.

Em primeiro lugar, como alguém disse sabiamente, tudo tem um preço e este é um bom preço. Por outras palavras, a PT sem a Vivo vale mais do que o correspondente 10% da sua capitalização bolsista, mesmo descontando o valor actual das oportunidades geradas por outras participações estratégicas fora de Portugal. Se é verdade que a Vivo é um pulmão importante para a capacidade de crescimento da PT, o facto desta desaparecer não a mata forçosamente por asfixia.

Em segundo lugar, porque a resposta à questão perceber quem afinal deve mandar numa empresa inserida numa economia de mercado é só uma: a vontade dos accionistas. Nestas coisas, se queremos que o mercado funcione, deve mandar quem pagou por isso em vez da cabeça pensante e iluminada de uma alminha com os dias (tudo leva a crer) contados.

Em terceiro lugar, porque se a imagem externa do Estado Português já estava má, a julgar pela fama de mau pagador que os spreads da dívida soberana não deixam esconder, agora ficou pior. Graças a Sócrates, os nossos investidores internacionais já não têm só de se preocupar com o risco de crédito do Estado mas também que ele decida imitar o “amigo” Hugo Chavez numa qualquer golpada latino-americana digna de telenovela com a mesma origem. Não fosse isto mau o suficiente, soma-se-lhe o momento é inadequado para estar a entrar em rota de colisão com Bruxelas, a quem certamente não vamos parar de pedir apoios para enfrentar uma crise cujo fim ainda não se vislumbra.

Por último, as oportunidades de crescimento não devem ser vistas como direitos adquiridos mas exactamente como isso mesmo: “oportunidades”. Algo que se pode concretizar ou não, mas cujo sucesso depende sobretudo de circunstâncias. Neste caso, por muito importante que possa ser hoje a posição na Vivo, nada implica que amanhã um outro qualquer interesse da PT dentro ou fora de Portugal não seja capaz de substituir a posição de destaque que hoje aquela representa. Esse é o “dom” do bom gestor: ter a capacidade de visão estratégica e detecção de oportunidades que levam a empresa ao sucesso. Mostra-se que, quando o Estado entra, isto deixa de ser necessário.

Ainda sobre este caso, dois protagonistas da nossa cena política assumiram recentemente os adjectivos descritos no segundo parágrafo. Francisco Louçã, pela competência que lhe reconheço (independentemente de não partilhar as suas ideias), foi irresponsável. Irresponsável porque não só sabe melhor que a maioria de nós o quanto esta manobra do Governo vai prejudicar o país, mas sobretudo porque como não espera vir a formar Governo tão cedo julga-se legitimado para debitar todas as barbáries com que a sua visão radical de esquerda lhe afoga o cérebro. Para Manuel Alegre, pelas patetices que ainda não se cansou de repetir sob a forma de pseudo-comentários às várias atitudes do Presidente desde que anunciou que era candidato, cujo absurdo do conteúdo tornam qualquer comentário um mero desperdício de esforço, pelo comentário que fez a esta situação concreta e pela ausência de qualquer feito de destaque nos últimos 30 anos que não tenha sido dizer mal sem propor coluções e viver à sombra da política, deixo o adjectivo que sobra. Estúpidos seremos também todos nós se o deixarmos entrar no Palácio de Belém sem que seja por convite para uma permanência inferior a algumas horas. Depois de dois Governos PS, é razão para puxar ao popularucho e dizer: “à primeira caem todos, à segunda só cai quem quer, mas à terceira só cai quem é estúpido”.

PS:
Uma última nota para o PSD e para o seu líder, Pedro Passos Coelho, cuja ânsia de mediatismo fez com que perdesse uma excelente oportunidade de estar calado. Talvez aprenda a lição e da próxima vez faça a tempo a escolha entre estar caladinho ou, caso decida opinar, não se deixe entrar em contradição com a posição do seu partido, transmitida pelo seu secretário-geral.

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