Hoje no estado da nação (minúsculas, que isto é um pardieiro) Paulo Portas agarrou na caneta Bic (só as Bic é que servem o propósito; as Molin não têm o mesmo alcance), tirou-lhe o tubo e disparou uma bola de papel, mascada com cuspo.
Serviu a dita para o nosso primeiro (minúsculas, que isto é um atoleiro) no fim da sessão e nos passos perdidos (minúsculas, que isto é um lodaçal) fazer a fita de sempre: depois das perguntas dos jornalistas de serviço sobre a bola de papel, o nosso primeiro dedicou-se a discorrer longos minutos sobre o que lhe apeteceu dizer, não interessando claro está o sentido da pergunta nem tão pouco, claro está mais uma vez, a resposta exigível e no fim do número ala e uma boa tarde.
Ora, o que me faz espécie é o papel a que se prestam estes jornalistas. O nosso primeiro goza com eles desde que ascendeu ao cargo, sendo sempre sobranceiro e mal-educado, respondendo apenas ao que lhe interessa e aproveitando sempre o ensejo para «fazer o seu “número” habitual do ungido e de penhor da credibilidade do país» e até hoje nunca, mas mesmo nunca, uma daquelas alminhas foi capaz de lhe cortar a prelecção e fazer aquilo que é obviamente sua obrigação, depois das continuadas tergiversões patológicas do nosso primeiro:
– O Sr. Primeiro Ministro vai responder à pergunta? Não? Então deixe estar, que nós vamos procurar a resposta noutro lado.
Com jornalistas alinhados é o que dá. São gozados e deixam-se estar, impávidos e serenos, a fazerem papel de parvos. E é claro que quem perde, com estas atitudes alinhadas, é a democracia. Mas poucos querem ver lá na classe deles; são eles os piores cegos.
Muito pertinente. Com uma classe jornalística decente a política em Portugal seria um poucochinho mais edificante.