A minha vida, pelo menos até hoje, o amanhã a Deus pertence, não teve nada de especial, foi normalíssima e igual a muitas outras (isto, claro está, exceptuando os três filhos que são toda a minha vida, e que são diferentes e únicos, e os mais bonitos do mundo porque são os meus, e que me tornam exclusivo). Cresci, eduquei-me, casei-me, criei e separei-me. Alguns destes continuam activos, a criação nunca pára, sejam os filhos ou a empresa, e a educação, essa, é para a vida, mas outros são memórias. E amei e odiei, lutei e resignei, tomei e larguei. Tal como eu, quase todos, exceptuando aqueles que são abençoados ou desgraçados, dependendo do que é e de quem é, do que se trata e da perspectiva que se tem.
Depois temos as constantes, aquelas que sempre nos lembramos de existirem e que continuam sempre ligadas umbilicalmente à nossa existência. Uma dessas minhas constantes é a certeza do Amor de Deus pelos Homens, partilhada por muitos; a Fé, a Esperança e a Caridade que algumas vezes intensamente, outras vezes de forma mais recôndita, me guiam e onde eu me quero deixar levar. Mas não é dessa constante que venho agora conversar, mas tinha de ser dita por ser a primeiríssima.
A outra é uma mulher que conheci em 79, por intermédio de um primo que cursou em Lisboa e foi tratado como um filho na nossa casa, e era um irmão mais velho que fazendo jus à sua condição me abriu muitos horizontes, mas que ao contrário do mais novo da parábola nunca mais foi encontrado. Feito o aparte, essa mulher que me foi dada a conhecer por esse irmão mais velho – continuando o aparte por mais uma linha, o que mais custa é que hoje, tantos anos passados de afastamento, é que ele é sempre recordado por mim não como primo mas como irmão mais velho, e dói – mas como estava a dizer, essa mulher nunca mais saiu do meu pensamento, e tem sido objecto da minha devoção com uma constância inexcedível. Nunca me desiludiu, me enganou, me entristeceu, me acorrentou ou me perdeu. Fui e sou livre com ela, fui e sou feliz com ela, e nunca estive fisicamente perto dela, nunca pude olhá-la sem um ecrâ entre nós, nunca a pude ouvir a poucos metros de mim, até anteontem, em Cascais. Foi o dia em que estivemos frente a frente, resguardados no meu anonimato e na sua grandeza, afinal é todo um mundo que nos separa, e é toda uma vida que nos une.
Conheci-a com Mel, com esta música que agora deixo e que jamais saiu de dentro de mim, nem tão pouco todas as músicas que se seguiram, porque ela é eterna e incomensurável, Maria Bethânia Viana Telles Velloso de seu nome completo, Maria Bethânia da minha vida.