Embirrações

Se um dia alguém me obrigasse a dizer, com uma pistola apontada ao toutiço, qual o livro que mais me marcou até hoje, e se só pudesse mesmo dar um nome, um único, singelo nome, abalançar-me-ia para o Miguel Strogoff, do Júlio Verne. É uma informação inútil, eu sei, mas tenho mais uns nadas para constatar.

Também é desnecessário saber que o Verne nas livrarias está na secção infanto-juvenil. Convenhamos que a Enid Blyton (para referir um autor de qualidade insuperável) não é a mesma coisa que o Verne. Em boa verdade na Fnac até o Harry Potter cabe na mesmíssima secção, ora duvido muito que um jovem no sentido estrito (pode-se ser jovem com quarenta anos, alguns são crianças aos cinquenta) consiga entender, que não é a mesma coisa que ler, todo ou pelo menos grande parte do imaginário que recobre os três últimos volumes da saga (os quatro primeiros são mais soft). Atenção. Não quero com isto dizer que um jovem não deva ler o Harry Potter, porque deve, e até acho que qualquer puto de dez anos devia ler o Ulisses do Joyce ou A Metamorfose do Kafka. E o Mercador de Veneza, para conhecer o solilóquio do Shylock. E o Verne. Todos os jovens deviam ler o Miguel Strogoff.

O que me encanita é as disposições das livrarias. Fico piúrso por o livro (e consequentemente o autor) que mais sentido fez à minha existência estar ao lado do Noddy e da Anita.

Também se pode dar o caso de eu não possuir mais estatura (estrutura?) mental que um pré-adolescente, e fica assim o assunto arrumado.

O que me levou a escrever estas linhas ocas? Não faço a mínima ideia.

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4 respostas a Embirrações

  1. agfernandes diz:

    André
    De Verne só li “Viagem ao Centro da Terra” e “Volta ao Mundo em 80 dias”, que adorei!
    Bem, na altura era pré-adolescente, a meu ver a idade mais virada para as aventuras (também li o Dumas nessa altura, e o Stevenson).
    Mas sempre que passa um filme baseado nesses livros, não o deixo escapar. E não penso que isso seja sinal de “infantilidade”.
    Acho graça essa disposição do Verne na secção infanto-juvenil. Mas sinceramente André, com os autores actualmente na berra na secção dos adultos, acho que o Verne prefere a companhia da Enid Blyton…
    Ana

  2. Maria João Marques diz:

    A lógica das prateleiras das livrarias não tem qualquer relação com qualquer outra lógica, aristotélica ou de senso comum, que conheçamos. Há uns tempos descobri numa fnac que se arruma o Oscar Wilde na secção ‘literatura gay’.

  3. Pingback: Analogia « Farmácia Central

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