A geografia política portuguesa e a forma como o sistema se especializou em dar a volta ao eleitorado

Olhando para trás (para a frente é mais difícil), começamos a perceber como isto, o sistema, funciona. Nada é por acaso.

Lembram-se quando Durão Barroso foi convidado para a presidência da UE?, quando o país mais precisava de estabilidade para pôr as contas em ordem? Estranho, no mínimo. Mas o convite foi providencial para os socialistas. Podiam ter ido logo ali para eleições. Mas não. O Presidente da altura recebeu no palácio os conselheiros (espectáculo) e tomou a decisão de nomear Santana Lopes. É que na altura os socialistas ainda não se tinham recomposto, e a sua imagem (espectáculo de novo) ainda precisava de uns retoques. Finalmente, com o actor principal e o palco arrumado (tudo para trás da cortina, a bem dizer), já podiam apresentar-se ao eleitorado (que infelizmente, e eles sabem-no, sofre de falta de memória).

Era só uma questão de tempo. E fazer a vida negra ao governo de Santana Lopes nos jornais e nas televisões. E o goveno de Santana Lopes era assim tão mau? Não. A meu ver, era até uma óptima equipa. Talvez uma das melhores desde 74. Mas não era do agrado do sistema. E poderia mexer com a geografia política portuguesa, o nervo sensível do sistema, e o decisivo: querer mudar o ministério da agricultura para Santarém? Pronto. Têm de ser travados já.  Qualquer dia resolvem descentralizar os locais de decisão, esta maravilhosa organização centrípeta do poder, laboriosamente preparada durante mais de dois séculos e que serve tão bem o sistema, estão a ver?, o sistema e a República, o regime que melhor o incorporou e serviu, pois sendo um regime amoral é, por isso mesmo, perfeito.

E foi assim. Os jornais e as televisões dedicaram-se obedientemente e afincadamente a esta missão: deitar abaixo o governo. A palavra-chave (nisto os socialistas e republicanos são muito simplórios, tinha de ser um termo muito básico e obtuso): “trapalhadas”. O clima adensou-se, e até um filósofo, catapultado a “um dos dez maiores pensadores do ocidente”, lançou um livro, “O medo de existir”, e insistiu, numa entrevista, que “o pensamento estava nas cidades” (referia-se a Lisboa?).

O eleitorado tem ido na conversa que mantém esta geografia política portuguesa. Mas está a abrir os olhos. Afinal, a mensagem subliminar eleitoral socialista (“Connosco Você pode ter uma fatia do bolo”) começa a descolar da realidade. O sistema terá agora de inventar uma “grande manobra” para voltar a dar a volta ao eleitorado. Qual será? Estará a cargo do “novo PSD”? É bem possível.

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5 respostas a A geografia política portuguesa e a forma como o sistema se especializou em dar a volta ao eleitorado

  1. André A. Correia diz:

    Ana, uma reflexão muito oportuna e , na minha modesta opinião, cheia de razão. A equipa de SL tinha tudo para mudar algumas coisas, mas o sistema não deixou. E Jorge Sampaio ficará para sempre associado à ignomínia. Um verdadeiro e grande socialista.

  2. Mr. Brown diz:

    “E o goveno de Santana Lopes era assim tão mau? Não. A meu ver, era até uma óptima equipa.”

    Com isto tenho de discordar. É verdade que figuravam nomes como Bagão Félix, José Pedro Aguiar-Branco e António Mexia, mas, utilizando terminologia desportiva muito em voga, algumas maçãs podres minaram todo o governo. A nível técnico é impossível não pensar em Maria do Carmo Seabra, reconhecida economista, mas que estava completamente deslocada na pasta da educação, mas o pior foi a nível do núcleo duro político de apoio a Santana, com Henrique Chaves e Rui Gomes da Silva. O primeiro, ainda antes de Sampaio tomar a decisão que tomou, abandonou o barco; e o segundo fomentou o caso Marcelo/TVI. De resto, Santana não é político para abdicar do “Connosco Você pode ter uma fatia do bolo” e é réplica de Sócrates na mania de por onde passa deixar obra emblemática, com custos elevados e o endividamento inerente.

  3. agfernandes diz:

    André, obrigada pelo incentivo para continuar a reflectir sobre a nossa actual situação.
    Ana

  4. agfernandes diz:

    Mr. Brown

    Independentemente do que refere, de alguns erros de casting, a equipa foi uma das melhores desde 74.
    Logo, nao é por aí.
    Além disso, o governo baseava-se numa maioria estável parlamentar PSD-CDS. Certo?
    Os argumentos a que os socialistas se agarram não são válidos, portanto.
    É também aqui que entra a máquina informativa do sistema. Certo? Não subestimar a máquina informativa do sistema. E ela que nos diz o que é real ou não, o que é verdade ou não.

    Assim se compreende que se tolerou a maior incompetência, negligência, gestão danosa socialista… sem problemas.
    Serve o sistema. Identifica-se com a cultura republcana. Mantém intocáveis os privilégios de um grupo, que se alimenta – ilegitimamente a meu ver -, do Estado, ou seja, do contribuinte.
    É esta a essência da minha reflexão.
    Ana

  5. Mr. Brown diz:

    “Independentemente do que refere, de alguns erros de casting, a equipa foi uma das melhores desde 74.”

    Cedo o ponto e admito que sim. Mas, voltando ao desporto, já vi excelentes equipas alcançarem resultados desastrosos por culpa de um mau treinador. E Santana era, para mim, claro está, um mau treinador.

    “Além disso, o governo baseava-se numa maioria estável parlamentar PSD-CDS. Certo?”

    Certo.

    “Os argumentos a que os socialistas se agarram não são válidos, portanto.”

    Aqui discordo. Os argumentos dos socialistas eram válidos. Os socialistas são é incoerentes quando não aplicam iguais argumentos para o governo Sócrates. Se o outro era “trapalhadas”, este não lhe fica atrás. O caso Marcelo/TVI é exemplar quando em contraste com o caso Manuela Moura Guedes. E Cavaco, por inacção, não fica ilibado de responsabilidades, tal como referi num comentário anterior a um post do André Correia.

    “É também aqui que entra a máquina informativa do sistema. Certo?”

    Não duvido. Por isso um caiu e o outro ainda está de pé. Segundo reza a história: Santana, em 6 meses, levou o país à ruína; Sócrates, em 6 anos, encaminha-nos para o paraíso. A máquina é tão forte que mesmo com o caos em que nos encontramos continuam nos 33%.

    “E ela que nos diz o que é real ou não, o que é verdade ou não.”

    Apesar de tudo, é possível pensar para além do que a máquina nos diz. A Ana fá-lo e eu tento fazer.

    “Assim se compreende que se tolerou a maior incompetência, negligência, gestão danosa socialista… sem problemas.”

    Nem mais.

    “Mantém intocáveis os privilégios de um grupo, que se alimenta – ilegitimamente a meu ver -, do Estado, ou seja, do contribuinte.”

    Subscrevo.

    Se fosse ponto por ponto ficaria claro que concordo com boa parte da reflexão da Ana. Em relação ao governo de Santana é que estaremos irremediavelmente em desacordo. Santana caiu e tinha de cair. Claro que isso não invalida que Sampaio devia ter convocado eleições aquando da saída de Durão, e não naquele timing que, como a Ana bem refere, foi tão conveniente.

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