Os 7 pecados mortais (1º episódio: os equívocos culturais)

Não sei se estarei à altura deste desafio: tentar desmontar não só os pecados mas também os equívocos culturais. Mas como sempre gostei de desafios, dilemas, fórmulas impossíveis, aí vai:

Tudo começou num simples comentários a um post do BZ n’ O Insurgente, sobre algumas conclusões da Conferência Episcopal. BZ considerou que os bispos tinham subtraído um dos 10 mandamentos, o “Não roubarás…”. É um modo criativo de colocar a questão, mas a questão, como tentarei revelar, não é essa. Se lerem a troca de ideias que se seguiu nos comentários perceberão melhor o que quero dizer. E aqui o BZ também me atribui, pelo meu comentário, a “cobiça” (glup!). Um pecado mortal, nem mais, pois está relacionada, como veremos, com a inveja e a soberba.

Os bispos saltam um mandamento e eu caio num dos 7 pecados mortais. Tinha de desmontar este equívoco, era um desafio. Não propriamente pela opinião do BZ ou de quem seguisse a troca de ideias, mas pelo desafio em si, pelo dilema, pela fórmula impossível. E sobretudo pelos idealistas que acreditam no futuro do país. Porque a desmontagem deste equívoco cultural tem em si a chave da solução do país, da sua preparação para os desafios do séc. XXI. Querem ver?

O que é que os bispos defenderam na Conferência? O equilíbrio, a coesão social. As medidas de austeridade deveriam ser acompanhadas de “forte intervenção na correcção de desequilíbrios inaceitáveis e de provocantes atentados à justiça social”. Lembrar que estas medidas são impostas pelo governo aos contribuintes. Certo? Medidas a que os contribuintes não podem escapar. Certo? Medidas de austeridade que deveriam abranger todos os elementos de uma dada sociedade e de forma equilibrada. Certo?

E o que é que aqui significa “provocantes atentados à justiça social”?: a fome a par da ostentação, por exemplo, famílias numerosas de baixos rendimentos abrangidas pelo corte do abono de família a par de prémios e remunerações principescas de gestores públicos, por exemplo, pensões no limite da miséria a par de pensões duplas e triplas de políticos que se sentaram uns poucos anos numa cadeira do poder, etc. Estão a ver? Está tudo num qualquer livro do Charles Dickens.

É por isso que os bispos lembram que “lucros indevidos, meros proveitos eleitorais e resultados oportunistas não servem a recuperação nacional” e apelam à “coesão responsável entre forças políticas, agentes económicos, organismos sociais, movimentos culturais, comunicação social e cada cidadão como participante activo.”

O “Não roubarás” parece-me de repente deslocar-se para o prato da balança da cultura corporativa do sistema e do regime que nos domina e nos impõe uma organização medíocre votada à pobreza, não parece?

Se a nossa organização económica fosse a de um mercado livre, se houvesse concorrência leal, aberta, com regras transparentes e equilibradas, o que teríamos? Um maior equilíbrio social, a meu ver. Mais prosperidade e capacidade de lidar com os riscos e desafios do mercado global. Mas não é esse o nosso cenário. Estamos condicionados, limitados, a uma cultura corporativa de uma “elite estatal”. E enfiados numa organização europeia que também se organizou de forma corporativa. Como podem ver, caros idealistas que acreditam no futuro do país, foi a cultura corporativa que subtraiu o mandamento “Não roubarás”.

E agora vamos também tentar desmontar o tal pecado mortal que me é atribuído, a cobiça. Existe uma relação cobiça-inveja-soberba e está nas definições da Wikipedia. Querem ver? Sigam a definição de inveja, o que a caracteriza, “sentimento de aversão ao que o outro tem e a própria pessoa não tem”, “que gera o desejo de ter exactamente o que a outra pessoa tem … tanto coisas materiais como qualidades inerentes ao ser”, “gerado pelo egocentrismo e pela soberba de querer ser mais e melhor que todos, não podendo suportar que outrem seja melhor”.

Cá está, a relação com a soberba, outro pecado mortal. Ora aqui é que temos a chave da cultura corporativa, querem ver? “Sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando a manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em factos ou variáveis reais”. O que eu gosto desta definição… sobretudo da parte “sem fundamento algum”…

Mas reparem agora nesta parte interessantíssima da definição: “As manifestações de soberba podem ser individuais ou grupais. Em termos grupais, podemos exemplificar o nacionalismo xenófobo… todos os tipos de racismo, corporativismo, elitismo, doutrina de povos escolhidos ou eleitos e outras concepções semelhantes, em que um grupo se firma na crença de que é superior…”. Então? Não é precisamente o que caracteriza a cultura corporativa? Exactamente.

Leiam então a seguir o que caracteriza o “corporativismo” e verifiquem se um tal sistema tem alguma hipótese de nos preparar para os desafios do séc. XXI. No way! A não ser pela tirania. Mas isso veremos nos episódios seguintes.

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