Os 7 pecados mortais (2º episódio: a cultura corporativa)

Como vimos, estamos diariamente rodeados por terríveis equívocos culturais: quem se julga no direito-disto-e-daquilo-porque-sim é quem, no fundo, utiliza, reforça e promove o pecado. Retomando as cenas do 1º episódio, o que justifica e mantém a cultura corporativa é precisamente o pecado da soberba (que justifica a sua existência) e o da inveja-cobiça (que justifica a sua manutenção). Vamos ver como isto se processa:

A existência da cultura corporativa baseia-se na perspectiva de que há eleitos (e aqui não me refiro ao resultado de um voto universal) e os outros: aqui temos a soberba. Vejamos porque é que um Presidente da República repete com insistência perturbadora (pelo menos para mim), sou o Presidente de todos os portugueses, mesmo que eleito (eleições presidenciais) por uma quarta parte dos eleitores (considerando que somos uns 9 milhões depois dos fluxos migratórios e da debandada de outros imigrantes do nosso país, dois milhões que o elegem são apenas 1/4 da população votante)? A lei assim o determina: passa a ser, de facto, o Presidente de todos os portugueses. Mas se desmontarmos ainda mais este processo, veremos que a sua pretensão, ter sido eleito pelo povo, nem é exacta. No regime republicano, que é o que melhor serve o sistema e a cultura corporativa que o caracteriza, o Presidente é eleito, escolhido, antes mesmo de se apresentar sequer a eleições. Neste regime, o sistema controla tudo, a organização e os procedimentos, desde o início. Uma monarquia, por exemplo – mesmo na sua versão mais empobrecida, a constitucional, que lhe retira a sua dimensão mais importante -, já escapa ao seu controle: a figura do Rei, pelo que simboliza e pelo que representa, já contém uma autoridade. Não uma autoridade imposta, mas uma autoridade intrínseca. É essa a sua incrível força, o seu significado, o seu simbolismo cultural: representa um povo e um reino, e a sua continuidade. Essas raízes profundas também lhe dão uma força afectiva, de representação da unidade, de uma identidade, de uma cultura própria. Por isso, os gestos de um Rei são sempre simbólicos, enraizados na cultura do povo, e a sua simplicidade é muito mais eficaz do que qualquer ostentação republicana. Se comparo estes dois regimes é apenas e tão-somente para desmontar a suposta popularidade ou aproximação ao povo de um regime que, a meu ver, só quer saber do povo em época de eleições, para legitimar pela lei aquilo que já foi decidido corporativamente. E só desmontar mais um equívoco: o melhor antídoto para o pecado da soberba e da inveja-cobiça é, precisamente, a consciência da nossa vulnerabilidade e da nossa transitoriedade. Numa organização em que a figura do Rei é central, esta consciência é alimentada diariamente: o poder real é simbólico, é-lhe atribuído por um poder superior, divino. E isto faz toda a diferença.

Paradoxalmente, a manutenção da cultura corporativa só é possível utilizando, reforçando e promovendo o pecado e, para já, vamos ao pecado da inveja-cobiça. É prometendo o acesso ao seu estilo de vida pueril e frívolo, que mantém o povo na eterna expectativa a pedalar em seco. Alguns, poucos, terão acesso à mesa do sistema, mas de novo são escolhidos criteriosamente, e é sempre na base da fidelidade canina. Os demais, os consumidores de telenovelas informativas da manutenção da ficção nacional, os consumidores de programas de péssima qualidade que também reforçam o desejo-cobiça-inveja de vidas pueris e frívolas, os que consomem produtos de fraca qualidade que pagam a prestações porque nem sequer podem escolher, para esses sobrará apenas a promessa, e é vê-los a pedalar em seco. É esta a maior perversidade de um regime que se diz popular, enraizado na igualdade, fraternidade e liberdade.

Se a Conferência Episcopal alertou para os desequilíbrios, é porque alguém tem de lembrar a verdade, e a verdade está à vista, em factos reais, vidas concretas. A actual organização política não serve. O actual regime não serve. E o sistema que os mantém, baseado na cultura corporativa, não pode sobreviver no séc. XXI. Os desafios do séc. XXI – informação, conhecimento, rapidez, eficácia, flexibilidade, inovação -, são perfeitamente incompatíveis com a cultura corporativa. Esta incompatibilidade já começa a ser visível na desorientação europeia. Tão longe daquela fotografia, e em toda a encenação em azul nos Jerónimos, não acham? Estamos realmente na encruzilhada: ou enveredamos pelo caminho viável ou permanecemos condicionados, sufocados, empatados, pela cultura corporativa.

Esta entrada foi publicada em Sapatos Ortopédicos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s