Quando todo o mundo está errado…

… todo o mundo tem razão!

Este ditado é a manifestação económica de uma coisa chamada a Lei dos Grandes Números. Se fossemos obrigados a explicar a uma criança de 3 anos o que isto significa, teríamos que dizer que é como se muita gente quisesse uma coisa, ela acontece mesmo.

Uma das grandes virtudes do sistema de mercado é a democracia que lhe está associada por definição. Num sistema de mercado, impera sempre a vontade da maioria.

Obviamente que nada neste mundo é perfeito, pelo que a perversão do sistema é possível e está no peso de cada voto na formação da maioria. Traduzido “por miúdos” (e hoje em dia temos que ter muito cuidado com este tipo de expressões), isto quer dizer que a opinião de uns é mais importante e portanto é possível em limite que uma minoria (o termo técnico para isto é “oligopólio”) ou mesmo uma única entidade domine todo o sistema. Contudo, como estes são casos extremos e (felizmente) pontuais, o sistema de mercado torna-se o melhor sistema conhecido para reger a interacção entre as várias partes, apesar das suas imperfeições.

Apenas um parêntese ao raciocínio, para fechar o argumento e não deixar que alguém venha para aqui divagar sobre as vantagens do sistema socialista, do controlo do mercado pelo estado e de outras baboseiras equivalentes: por muitos atributos que um sistema socialista de controlo de mercado possa ter, ele é um monopólio por definição (já que apenas um agente económico controla o mercado à sua vontade) e se isto não fosse suficiente, esse agente que é o Estado nem sempre tem como princípio orientador na sua intervenção no mercado a equidade, como é exemplo toda a corrupção e vícios conhecidos das sociedades socialistas. Portanto não vale a pena apregoar a ideia de um Estado “justiceiro” contra uns senhores gordos que a partir de umas catacumbas oprimem o povo enquanto acendem charutos com notas, porque isto é um completo disparate e serve apenas para que o Bloco de Esquerda nos consiga divertir a todos com as baboseiras que alguns dos seus membros proferem.

Voltando à Lei dos Grandes Números, hoje vi no Diário Económico um conjunto de notícias que me deixou ainda mais pessimista quanto aos próximos tempos: aparentemente os mercados (os tais senhores gordos mauzões que queimam notas a acender charutos) já estão a dar de barato (o termo técnico para isto é “descontar”) uma intervenção externa em Portugal. Ora se acreditarmos nesta Lei (dos Grandes Números), isto põe uma pressão enorme no nosso Presidente.

Porquê? Porque como ele também acredita (não tivesse ele formação de economista ), sabe que mesmo que não precisemos de uma intervenção externa vamos mesmo levar com ela a não ser que se mudem as circunstâncias. Embora partilhe da opinião que ainda somos capazes de nos tentar desenvencilhar sozinhos desta encrenca em que nos metemos, acho que ele próprio reconhece que estamos num caminho perigoso e tenta de forma subtil evitar o que cada vez parece mais inevitável, nomeadamente quando chamou Obama para uma acção de charme e o tentou convencer que somos diferentes de todos os que até agora pediram ajuda.

Foi uma boa iniciativa: tratou-se de aproveitar uma oportunidade que se abriu com a presença de um líder importante para os destinos do mundo em Portugal. Infelizmente, o mais provável que se venha a mostrar totalmente infrutífera. As razões deste logro prendem-se com a fragilidade dos argumentos e com, mais uma vez, as trapalhadas dos nossos governantes.

Como as trapalhadas já foram amplamente discutidas, vamos ao que interessa: a fragilidade dos argumentos.

O nosso Presidente deu 3 argumentos para a diferença a nosso favor, todos parcialmente verdadeiros: não temos qualquer crise no sistema bancário, não tivemos nenhuma bolha imobiliária e o nível de endividamento público está na média da União Europeia. Para serem totalmente verdadeiros o Presidente teria que reformular os dois primeiros argumentos e dizer que ainda não tivemos qualquer crise no sistema bancário mas que ainda não sabemos muito bem os impactos reais dos apertos à concessão de liquidez que o BCE já manifestou ter intenção de fazer e que não tivemos nenhuma bolha imobiliária porque ela ainda não rebentou, embora os bancos estejam cada vez mais apreensivos com a evolução do crédito vencido à habitação e construção, que não para de aumentar.

Mesmo que isto fosse dito mudava alguma coisa na forma como olham para nós? Muito provavelmente não e a razão é simples: falta uma quarta diferença face à Grécia e à Irlanda. Qual? O nosso problema é estrutural enquanto o deles é conjuntural. Isto quer dizer que o deles se resolve de forma mais ou menos rápida simplesmente atirando dinheiro para cima do problema. Já o nosso é formado por um conjunto enorme de sub-problemas interligados relacionados com debilidades internas na nossa organização enquanto sociedade, que não só o dinheiro só por si não resolve, que não temos muita vontade de enfrentar e que mesmo que tivéssemos ia demorar uma dezena de anos a resolver. Falo em concreto da baixa qualificação dos nossos recursos humanos, da falta de visão e estratégia da maioria dos nossos pequenos empresários para quem a empresa é simultaneamente uma extensão da sua conta bancária e uma forma de fugirem ao fisco, do afastamento do nosso sistema de educação face às reais necessidades do mercado de trabalho, da burocracia, da corrupção, da falta de fiscalização, do sentimento de impunidade geral face ao que é ilícito e dos nossos valores enquanto sociedade.

Ponto positivo para o Presidente, pela tentativa. Não resultou (pelo menos assim o diz a yield das OTs no mercado secundário), pelo que há que encontrar outra forma de mudar as circunstâncias e tentar dar alguma credibilidade a isto antes que seja tarde demais.

Recuso-me a fazer pedidos directamente, mas acho que todos sabemos qual é a derradeira tentativa antes deles decidirem cá vir. Se isso acontecer, será o hat trick das trapalhadas da esquerda, depois de 1977 e 1983.

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2 respostas a Quando todo o mundo está errado…

  1. JMG diz:

    Os nossos pequenos empresários têm ainda um problema suplementar, que é o de não contratarem suficientemente estes moços que sabem imenso de gestão, economia, e o catano, para os ensinarem a ter a tal visão estratégica que lhes falta, a não roubarem ao Fisco nem considerarem a empresa como uma “extensão da sua conta bancária” e também (esse pormenor incompreensìvelmente escapou) a revelarem empreendedorismo, porque de uma tal formação estão muito carecidinhos. Vai-se a ver e, se calhar, os tais PME’s acham que: i) Se estes dinâmicos preopinantes soubessem realmente muito do assunto talvez se abalançassem a fundar umas PME’s ou, mais fácil ainda, aproveitassem uma das muitas PME’s que estão por aí à beira da falência por má gestão para a comprarem por dez réis; ii) Os pequenos empresários (e nem sempre os grandes) estão submetidos a um sistema, que não comandam nem sequer regulam e que os liquida se forem como os sindicatos e a maior parte dos estudiosos os descrevem. Chama-se a esse sistema “concorrência” e os seus rigores são draconianos para empresários, que arriscam o património e a sobrevivência com o mesmo estatuto social em caso de falharem, consequências que só são equiparáveis às dos desempregados – embora para empresários não haja subsídio e retomar a actividade seja em Portugal quase impossível.
    Mas enfim, eu, como os mais, realmente não sei muito – e estou à espera de que os que sabem façam melhor. Já espero há tantos anos como os que levo de empresário (mais de 30) e ouço este discurso. Entretanto, as Faculdades da área pariram levas de licenciados – parece que muitos estão a empregados de bancos, quando não caixas de supermercados e telefonistas de call centers. Nos planos curriculares deve faltar a cadeira do tal empreendedorismo. Mas também se calhar não há professores – estão a dar ou outras cadeiras ou opiniões.

    • Zé M. Lucas Martins diz:

      Passando ao lado das tentativas de ataque pessoal, que em nada contribuem para a discussão das ideias, vamos a falar de números e de coisas concretas para não cairmos na discussão do “eu acho que…”.

      Em 2008, mais de 95% do nosso tecido empresarial empregava menos de 10 pessoas, o que é sintoma de uma debilidade estrutural do nosso sistema produtivo face à média da UE27, onde esse valor em 2007 era pouco superior a 70%, uma vez que como sabemos o nosso modelo de desenvolvimento nos anos 80 e 90 assentou numa competitividade artificial suportada em baixos salários.

      O que certamente depreendo do seu comentário é que acha normal e até mesmo saudável que do total das nossas empresas, 44% não gerem resultados positivos e não só não paguem impostos como obtenham créditos fiscais. Também certamente é normal para si, e até bom para nós todos enquanto sociedade, que nos últimos 10 anos o valor mais baixo registado pela nossa economia fossem os 38,3% de empresas com prejuízos em 2004, e que se excluirmos 2004 e 2005, mais de 40% do total das nossas empresas não pagou impostos por declarar prejuízos.

      É evidente que este números são falsos e portanto os milhares de processos instaurados por fuga ao fisco ou falência fraudulenta que atulham os tribunais administrativos de 1ª instância espalhados pelo país ou os tribunais centrais administrativos de Lisboa e Porto são apenas uma cabala bem montada.

      Sendo assim, e como não somos em nada inferiores aos outros, até é de esperar que o investimento na melhoria das empresas pelos empresários (medido como % de investimento em R&D em % do PIB) em Portugal seja em média igual à da Europa, certo? Errado! Em 2008, a média da Zona Euro foi de 1,22%. Portugal? 0,73%!

      Podia continuar aqui com números e mais números para explicar porque é que o discurso de “já ando há 30 anos na faina” é demasiado pobrezinho para merecer mais do que 5 minutos de atenção.

      É evidente que existem empresários com mérito, que enfrentam os risco do negócio, com boas ideias e bons produtos. Também ninguém diz que ser empresário é fácil e que não há constrangimentos, um deles é a questão da entrega do IVA antes de se receber (podemos discutir as razões que levam a que isso seja assim e quais as alternativas, desde que seja como homenzinhos).

      Quanto a voltar a estar sequer perto da condição de empresário em Portugal, esqueça lá essa ideia nos próximos anos. Se o mercado que interessa é o de exportação, dado que as perspectivas de crescimento do mercado interno são muito baixas, então qual é a lógica de comprar uma empresa falida em Portugal? Ou tem uma vantagem competitiva relevante (e nesse caso pergunto-me porque iria à falência), ou cria sinergias com a minha condição actual (o que não é o caso porque seria uma aquisição para começar), ou está sobre endividada e ninguém lhe empresta dinheiro (e é um problema a prazo) ou então não é assim tão barata.

      Como acredito que assim é, vou é pegar no dinheiro que tenho para investir e comprar uma posição de accionista num negócio que esse sim tenha potencial, dado que não preciso do contabilista para esconder o leasing do Porsche, os almoços ou as compras de Natal nas contas da empresa.

      Se são competitivos, ajudem-se. Neste campo, há muito a fazer, nomeadamente no acesso a capital de risco para boas ideias. Agora para a conversa do “coitadinho de mim” que vivo há anos a declarar prejuízos, a perder dinheiro, e a viver por milagre sem gerar riqueza é que não tenho nem tempo nem paciência.

      Se não geram riqueza, a falência é a forma do mercado lidar com quem não aguenta.

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