Os 7 pecados mortais (5º episódio: a cultura corporativa e a democracia são incompatíveis)

Como disse Medina Carreira ontem no Prós e Contras, e já o disse muitas vezes na Sic Notícias: sem economia não há democracia. E insistiu que, mais do que as ideologias, os números não mentem. Antes do intervalo já tinha defendido a vinda do FMI, abalado a teoria do Keynes e colocado os cabelos da apresentadora em pé, a propósito da sustentabilidade do estado social: Não podemos andar a enganar esta gente. Bem basta o governo. Os economistas têm de lhes dizer a verdade.

Podia pegar na relação cultura corporativa – democracia pela frase de Medina Carreira: sem economia não há democracia. Bastava lembrar o estado actual da economia depois de anos de expansão de um estado que funciona corporativamente, obedecendo à sua natureza – gula e avareza -, que deu nos resultados visíveis: pobreza e escassez. Medina Carreira alertou que, à semelhança do que aconteceu depois dos desvarios da 1ª República que implicaram um regime autoritário, também hoje isso pode voltar a ocorrer, e que é precisamente para evitar essa situação-limite, que devemos alterar profundamente a gestão dos recursos colectivos e criar condições favoráveis ao crescimento da economia: controlar a despesa e fazer as reformas estruturais.

Não sabendo lidar com os números que não mentem, nem querendo desvendar a verdade comprometedora, a cultura corporativa tem ao seu dispor muitos mecanismos de marketing político:  lançar a confusão, manter os equívocos, alimentar os alibis, enfim, a narrativa oficial. A cultura corporativa até tem uma expressão muito curiosa: “falar a uma só voz” (glup!, já viram o que isso significa?). E termos muito teatrais: “patriotismo” (isto é, pedalem aí para nos manter no poleiro), “acreditar em Portugal” (apanhem os cacos depois da destruição e quem se queixar é negativista), “unidade” (conformem-se à vossa existência medíocre e pedalem para aguentar isto), “esperança” (olhem para os casos de sucesso), “confiança” (olhem sempre para a minha excelsa pessoa), “coesão social” (lembramo-nos dos pobrezinhos em período eleitoral). O que se pede aos cidadãos é o conformismo e a mentalidade de escravo: Pedalem em seco mas pedalem. Quem se queixa é mau. Aceitem a vossa condição. Se pedalarem com força um dia terão também uma vida de sucesso.

Ao não conseguir lidar com a verdade, condição essencial de uma democracia, a cultura corporativa perde toda a legitimidade para sequer falar de “acreditar”, “confiança”, “unidade”, “coesão social”, “esperança”. Porque só na verdade estes termos fazem sentido. Estes termos implicam um compromisso real, concreto, não são meras palavras num “manifesto eleitoral”. Só na verdade podemos mobilizar seja quem for. Bem, durante uns tempos a narrativa oficial e o apelo patriótico eleitoral até pode funcionar. Mas não se poderá manter por muito tempo, mesmo recorrendo a todos os alibis do catálogo (crise internacional, os credores, etc.).

Ao não saber lidar com as criticas dos discordantes, condição essencial de uma democracia, isto é, tentado neutralizar as críticas e propostas alternativas, a cultura corporativa pode estar muito mais próxima do que se pensa da sua situação-limite: a tirania. Já revela traços preocupantes de uma opção clara por esse caminho. Ao apelidar todos os discordantes como “os que dizem mal de tudo”, ou como “bota-abaixistas” (termo do PM), está a passar essa mensagem de que a partir daqui será mesmo “a uma só voz”.

No tempo do Estado Novo, todos os críticos eram “comunistas” (como nos States, no maccartismo), agora os que discordam são apelidados de “fascistas” (Medina Carreira respondeu-lhes à letra com os números). Moral da história: repor a verdade, FMI já para controlar a despesa galopante e, se ainda for possível, evitar a situação-limite que comprometeria de vez uma democracia tão frágil e adulterada como a nossa.

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2 respostas a Os 7 pecados mortais (5º episódio: a cultura corporativa e a democracia são incompatíveis)

  1. jo diz:

    Antenção!! O Estado Social não tem o monopólio do pensamento corporativista, nem as piores corporações são do Estado.

  2. agfernandes diz:

    Jo
    Correcto, mas sao as mais perversas porque se alimentam a custa do contribuinte.
    Ana

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