Teremos realmente sido ajudados?



Os últimos dias foram de emoções contraditórias.

Na 4ª, parti cedo para Madrid levando na mente a apreensão de quem estava convencido que as nossas contas públicas não iam passar o crivo alemão e que, lá pela hora de almoço, iria ouvir a notícia da chegada a Lisboa do FMI.

Contudo, a viagem de regresso foi marcada por um misto de surpresa e optimismo. Surpresa pelas declarações de Ângela Merkel, que elogiou (de uma forma que se pode considerar efusiva dentro dos padrões germânicos) o nosso escrupuloso cumprimento das metas a que nos comprometemos, a coragem das medidas que estão a ser tomadas e o optimismo da afirmação peremptória de quem nunca disse que Portugal precisasse de ajuda externa.

O nosso PM Sócrates, tal e qual um peixe-balão depois de inchado, afirmava com aquele travo a arrogância que a nós já nem nos amarga na boca, que Portugal não prestava subserviência a ninguém e que ia continuar exactamente no mesmo rumo, não obstante os comentários a quente dos nossos pensadores, que achavam uma afronta ele ter sido chamado a Berlim da mesma forma como os pais dos meninos mal comportados são chamados à escola para levarem uma repreensão pelo (mau) comportamento dos filhos.

Orgulhos à parte, o que me veio à cabeça foi apenas um “Boa Sócrates! Enganaste mais uma, e olha que esta era difícil.”. Deitei-me com esta ideia e dormi o sono dos justos.

De manhã, ontem, acordei com aquela sensação de “if it feels too good to be true, then it probably is”. Será que o palavreado de vendedor de banha da cobra do nosso executivo foi suficiente para dar a volta aos alemães?

É que até nós, incautos e crédulos, conseguimos perceber que os resultados fabulosos da execução orçamental são na prática os resultados de medidas sem sustentabilidade, pois não é possível inventar muito mais desorçamentação (mesmo com a Parpública a ajudar), a PT já não vai ter um 2º Fundo de Pensões para nos oferecer e a economia está a chegar ao limite Curva de Laffer (que alguns consideram mesmo já se ter passado este ponto). Se é assim, então aqueles que nós achamos que mandam na Europa são tão ceguinhos que não conseguem ver isto? Ou serão eles menos espertos que nós?

Infelizmente, o final do dia de ontem e o inicio do dia de hoje leva-me a ficar novamente pessimista, pois temo que eles tenham sido bem mais espertos do que “nós” pensámos.

Vejamos: (i) a chanceler alemã enfrenta uma grande oposição interna, com consequências nas mais recentes eleições, para parar de enviar camiões de dinheiro que paguem os devaneios dos povos abaixo dos Pirinéus; (ii) na organização política europeia, excepto num caso de manifesta má fé (como aconteceu aos Gregos, que mentiram nas contas), é impossível forçar um país a pedir ajuda; (iii) Portugal já foi “sensibilizado” indirectamente por várias vias a pedir ajuda externa, sempre sem sucesso.

Ora, e se tudo isto não passasse de um esquema bem montado para nos destapar a careca e nos colocar o mesmo rótulo de mentirosos que neste momento está só na testa dos gregos? Tomando os nossos números por bons mesmo sabendo de antemão que eles são pouco rigorosos, e se Merkel está na pratica a dar-nos um bilhete sem regresso para o abismo, que é como quem diz a esperar sentada para nos chamar mentirosos e nos aplicar a mesma sentença que aplicou à Grécia logo que o verniz com que foram polidas as nossas contas estale?

Se for assim, é maquiavélico, mas é uma jogada estratégica de mestre.

Espero enganar-me, mas vamos esperar para ver.

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