Coisas da Vogue II

 

Lá pelos anos 80, década que como se sabe só se recomenda pela música e pelo colapso da União Soviética e onde tudo o resto glorificava a vulgaridade, andava eu pela primeira metade da adolescência, lembro-me de ouvir os amigos (meninos e também meninas) do meu irmão (catorze anos mais velho) e o próprio do irmão – e, garanto-vos, já li esse mesmo argumento depois do mundo recuperar um bocadinho de juízo no pós-1990 – comentando a qualidade do conteúdo editorial da Playboy que, afiançavam, justificava a compra da revista. (Pois!) Há uns anos, no filme O Diabo Veste Prada (bem melhor do que o livro) a personagem da lindíssima Anne Hathaway tentava às tantas convencer os amigos da validade do seu trabalho com as peças de escritores e jornalistas de renome que teriam sido publicadas pela Runway, uma mock-Vogue.

Eu, que me recuso a renunciar à minha frivolidade, não vos vou dizer que só leio – e no caso da edição americana, assino mesmo – as Vogue todas que apanho (Brasil, Espanha, Itália, UK,…) e ocasionalmente umas Harper´s Bazaar pelo conteúdo editorial. Não, vejo tudo: as roupas, a publicidade, os produtos de beleza, as caixinhas de texto todas, etc. etc.. Ainda na semana passada corri à perfumaria a comprar um verniz Dior azul após tê-lo avistado na Vogue britânica. Isto dito, a Vogue tem com frequência textos de escritoras ou jornalistas contando experiências próprias que são do melhor que eu tenho lido em revistas, nada devendo a uma Vanity Fair ou a uma New Yorker. É a senhora de setenta anos que tem um affair com um homem casado. Ou a cinquentona que namora com um trintão. Ou a jornalista famosa contando o seu romance com a sua casa do Garden District em New Orleans. Ou a senhora que olha para trás e verifica que desistiu dos seus sonhos para dar a ribalta a um homem que não merecia o sacrifício. Ou a mãe e empresária bem sucedida que conta como recuperou de um aneurisma cerebral (são os aneurismas todos cerebrais? escrevo uma redundância? não sei). Ou a historiadora best-seller que conta a adaptação do seu livro para filme enquanto estava grávida com indicação de repouso. Na edição de Abril lê-se uma peça contando como uma jornalista arguta e premiada se viu na situação de enviuvar e descobrir que o falecido marido lhe deixara uma dívida ao fisco de três milhões de dólares. Sim, vale a pena mesmo para quem não gosta de trapinhos.

(Fotografia roubada à Vogue.)

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Uma resposta a Coisas da Vogue II

  1. fernando antolin diz:

    As “conselheiras editoriais” da página central e outras, da Playboy, até eram moçoilas de fartas…capacidades culturais…bem hajam…

    Já o Jornal de Letras anda tão maçudo, quem sabe se…

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