Se faz favor, quando é que vem a parte do liberalismo?

Eu estou entusiasmadíssima por, finalmente, termos um governo liberal e que vai governar de forma diferente e vai fazer mudanças e reformar o Estado e essas coisas todas.

É certo que a primeira coisa que fez não foi lá muito diferente dos dois ciclos governativos anteriores: aumentar impostos, desta vez substituindo aumento do IVA por saque ao subsídio de Natal. Mas, claro, foi só porque o governo foi obrigado (não havia nenhuma, nenhuma outra opção) devido às más contas do governo anterior (o que pensando bem também foi a desculpa de Durão e Sócrates).

E é certo que ainda não pararam as notícias de aumentos de impostos. Quem comprar algo de mais de 100.000€ (se for uma casa de 102.000€ é, como se sabe, um casarão) vai ser taxado se não explicar direitinho de onde lhe veio o dinheiro – sim, porque nesta coisa de impostos parece que o ónus da prova já está invertido; não, não é o fisco ou o ministério público que têm a obrigação de provar que o dinheiro foi adquirido de forma ilícita e também fica por explicar se é um tribunal que decide se um contribuinte justifica bem de onde lhe veio o dinheiro ou se isso vai ser um poder discricionário do fisco com a garantia de que o contribuinte poderá reclamar – depois, claro está, de a administração fiscal lhe ir à conta bancária buscar o imposto que decidiu que tem direito. Isto a mim parece-me totalitarismo fiscal, mas não, não cedo perante a tentação e repito o mantra ‘o governo é liberal, o governo é liberal’ até, finalmente ver a luz.

Continua sendo certo que além de impostos o governo – com a ajuda dispensável do PR – se prepara para aumentar as taxas moderadoras no SNS, esperando assim espantar ainda mais utentes para as seguradoras de saúde, tudo porque não consegue poupar noutro lado para transferir recursos financeiros para pagar as despesas de saúde que, previsivelmente com o envelhecimento da população, aumentarão mesmo com boa gestão. Isto à primeira vista dá a entender que este governo, tal como os anteriores, resolve todos os problemas transferindo coercivamente recursos individuais para a posse do Estado, o que é a antítese do liberalismo, mas depois o manta acima mencionado ajuda a recentrar-me.

É ainda certo que as medidas enfaticamente anunciadas para o lado da receita não foram acompanhadas de nada parecido do lado da despesa. Tirando a poupança no ar condicionado de Assunção Cristas, as luzes e os computadores desligados à noite no ministério de Álvaro Santos Pereira e os cartões de crédito e carros de serviço ao fim-de-semana que tiraram aos ministros – tudo coisas obrigatórias neste período mas, enfim, peanuts – nada se vê de relevante na diminuição da despesa. A reorganização do mapa municipal novecentista, essencial, já foi – muuuuito corajosamente – recusada.

Mas estes pensamentos são obras do tentador, porque o governo é muito liberal, e tem a cabeça e o coração nos sítios certo, quando aumenta impostos pretende tornar o estado mais pequeno e mais sustentável. Isto é tudo por culpa do sócrates. Os coitadinhos que lá estão agora não têm mesmo outras opções.

Mistério da fé.

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