A necessidade de uma mudança cultural profunda

Numa entrevista recente, desta vez a um economista da troika, Judite de Sousa perguntou-lhe se acreditava que Portugal iria conseguir cumprir os objectivos propostos, a tal redução do défice, pagar o que deve, e o mais difícil!, pôr a economia a crescer. Observei-o atentamente e pareceu-me, pela sua reacção, que ele nem sequer punha a hipótese de não ver atingidos os ditos objectivos. A seguir veio uma pergunta-chave: E o senhor não tem receio de pôr em risco a sua reputação profissional? Aqui confesso que a Judite de Sousa me conseguiu surpreender pela primeira vez nestas entrevistas. Neste caso e pela reacção observada, o economista em questão quer preservar intacta a sua credibilidade profissional.

Se este factor pesasse nos nossos gestores políticos, não veríamos tanta preocupação com a imagem de um governo mas, em vez disso, a motivação de preservar a credibilidade profissional e política, de recuperar a confiança perdida, de gerir bem as expectativas criadas.

Mas por cá estes factores parecem não pesar nas decisões. Multiplicam-se os assessores para trabalhar a comunicação das decisões políticas, em vez de trabalharem precisamente a escolha das melhores decisões políticas. Enquanto esta cultura não mudar, enquanto não estivermos a falar a sério, de forma consequente, não vamos lá, e a única reputação profissional a perder é a do economista da troika.

Se em vez de se rodearem de mais pessoal à custa do contribuinte começassem a solicitar pareceres de profissionais com uma credibilidade a defender e a preservar, e começassem pelas áreas actualmente mais sensíveis – sociologia, psicologia social, coesão territorial, gestão local, gestão de recursos humanos -, numa perspectiva preventiva e pedagógica, prestariam um melhor serviço público, com resultadfos visíveis e credíveis. E para isso não precisavam de arranjar mais encargos, um simples Relatório implica um pagamento adequado. E certamente algumas das decisões já avançadas não teriam sequer saído de uma acta de uma qualquer reunião.

A confiança perdida não foi recuperada e ninguém parece preocupado com isso. Vivemos num país onde a confiança deixou de ser uma prioridade, mesmo sabendo que é a base de uma organização social estável. Sem confiança, como se gerem expectativas? A única expectativa que resta é a de que não saímos da cepa torta, a de que não vamos a lado nenhum e, finalmente, a óbvia: salve-se quem puder!

Guardo ainda na memória um Portugal mais simples e luminoso, a par do Portugal cinzento e abafado (o lado A e o lado B). Esse Portugal foi-se perdendo, agora só permanece em pequeníssima escala, em minúsculos oásis, por vezes só se vislumbra num olhar directo, no brio profissional, no cumprimento de prazos, no respeito pelos outros.

É essa a minha secreta expectativa, que mal me atrevo a formular: que haja minúsculos oásis suficientes para iniciarem uma mudança cultural profunda, ainda que em pequena escala e dimensão, mas suficientemente estáveis para não vacilarem ou se deixarem diluir na mentalidade instalada, em que os próprios gestores económicos e políticos não se preocupam, mesmo numa fase tão difícil e crítica como a que estamos a atravessar e vamos ainda atravessar.

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2 respostas a A necessidade de uma mudança cultural profunda

  1. Ativo diz:

    O civismo e o altruísmo não são as características mais fortes do povo português, seja a que nível for. O comportamento é geral e os políticos são um reflexo disso. Enquanto o chico-espertismos, a cunha, e outras tantas coisas forem normais na nossa sociedade, estamos todos no mesmo barco.

  2. agfernandes diz:

    Ativo
    Por isso mesmo acho que a melhor perspectiva é reforçar a parte construtiva, as atitudes que revelam autonomia e responsabilidade.
    Os obstáculos já estão identificados e nada mudou. Só a partir da sociedade civil e da sua escolha pela realidade e pelo bom senso, em vez da ficção e da alienação, é que conseguiremos ver resultados visíveis: crescimento económico, equilíbrio social, confiança nas organizações, etc.
    Cumprimentos
    Ana

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