Não têm tomates

Diz o princípio de Pareto que geralmente 80% dos efeitos provêm de 20% das causas, matematicamente falando x% dos efeitos são originados por (100-x)% de causas que concorrem para os mesmos, numa amostra que tenha dimensão adequada. Este princípio está por trás da análise ABC, muito usada em gestão de stocks.

Numa estrutura de gastos verifica-se também que esta proporção é válida. Com efeito, os leitores que controlem os seus custos mensais (pessoais, das suas empresas, whatever) façam o teste e verificarão que entre 15 a 30% dos itens – os itens A – corresponderão a 70-85% dos total incorrido. Aos meus alunos costumo dizer que, quando estão em maré de reduzir custos, antes de andarem desordenamente a calcorrear os balancetes e a olhómetro tentarem decidir onde podem cortar, categorizem desta maneira a sua folha de cálculo e foquem-se nos tais 20% das alíneas que são responsáveis por 80% do total de custos e deixem as restantes (os itens B e C) em paz, que são o vulgo peanuts. Não vale a pena perder tempo nestes tais peanuts porque daí não virá poupança que se veja, i.e. que seja relevante.

Se extrapolarmos isto para as contas gerais do Estado chegaremos à conclusão que só resolveremos os problemas de deficit crónico quando reduzirmos significativamente os gastos que temos actualmente com salários da função pública, pensões, prestações sociais, saúde e educação em valores nominais. Não fiz o exercício mas se alguém contesta pode dedicar-se a ele. Assumindo que tenho razão, enquanto quem nos governa não entrar  a matar nestas áreas (em todas ou em parte, aqui dependeria de qual o valor de redução que será necessário atingir) jamais sairemos do nó gordo onde estamos entrelaçados.

A diferença nesta análise no que respeita ao Estado e a todos os outros operadores é que, ao contrário dos últimos, para o Estado os peanuts são relevantes por razões de equidade e justiça. Estamos a falar do dinheiro que é de todos, e que tem de ser administrado judiciosamente. Não é lícito (não deveria ser lícito, melhor dizendo) ao Estado tirar 1 cêntimo que seja a qualquer das categorias elencadas no parágrafo anterior enquanto não eliminar todo e qualquer fluxo externo à lista. Não devia ser moralmente permitido ao Estado cortar no subsídio de Natal, na comparticipação de medicamentos, nos salários dos seus funcionários, etc. enquanto não eliminasse – repito, eliminasse – por exemplo, novos contrato com consultores externos (escritórios de advogados, arquitectos, engenheiros,…). É preciso um parecer jurídico? Há juristas na função pública. É preciso avaliar os imóveis do Estado? Há engenheiros no Ministério das Obras Públicas (já não deve ser este o nome, paciência).  O que fosse possível fazer com a prata da casa, muito bem, o que não fosse possível fazer ficava à espera de melhores dias. Os exemplos que dou são meramente informativos, o que quero expressar é o princípio que considero dever fazer parte do código genético de administração de qualquer Governo de um país: não há dinheiro, não há vícios.

Eu votei para a actual maioria. Até agora, e ao contrário do que (talvez ingenuamente) pensei, tenho visto o actual Governo a contrariar o tal código genético de administração. Não sei se por não quererem, não poderem ou por incompetência, nada do que considero um imperativo moral está a ser seguido. É mais impostos, cortes nestas áreas sensíveis, mas em toda a célebre gordura do Estado, até agora, nada.

Esta é uma opinião pessoal, mas é a minha, vale tanto ou nada como qualquer outra. Mas tenho uma certeza: o Governo, até agora, tem mostrado apenas e uma só coisa: não tem tomates.

(Os links estão para as páginas inglesas da Wikipedia porque estão mais completas nessa língua, não se tratou no caso de qualquer tique anglo-saxónico da minha parte).
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