A vida prática, 2º episódio: as vozes estruturantes podem ser um motor de arranque da economia

Aqui considero como vozes estruturantes a Igreja e o voluntariado, nas suas mais diversas valências e expressões concretas. Mas antes de as perspectivar como um motor de arranque da economia, há uma primeira imagem para estas vozes estruturantes: a de cerzideiras de um tecido social a romper-se. Sim, a imagem de um tecido social a precisar de remendos parece-me bastante próxima do que nos tem vindo a acontecer ou do que deixámos que nos acontecesse.

Mas comecemos pelo início do nosso episódio:

Enquanto filtramos a informação que nos é prestada nos jornais e nas televisões, incluindo notícias, entrevistas e debates, aproveitando apenas 10% como relevante ou útil para a nossa vida prática, a Igreja tem procurado a informação que conta, a da realidade, através da proximidade das diversas comunidades: as paróquias e instituições ligadas à prestação de serviços sociais. A universidade católica empenhou-se num estudo exaustivo e profundo da realidade social actual. Além disso, a Igreja tem sido uma voz estruturante, a desmontar equívocos culturais que estão na base de desequilíbrios inadmissíveis numa democracia, numa sociedade que promove e defende a dignidade humana. E qual é a lógica que anula de imediato a cultura corporativa vigente? Muito simplesmente, o valor intrínseco de cada indivíduo. O respeito por si próprio e pelos outros seus irmãos. O valor inalienável da vida. Esta lógica moral neutraliza de imediato qualquer argumentação elaborada e sedutora de uma cultura pueril.

A Igreja traduz hoje a voz de quem não é considerado no grande plano, de todos os que são indevidamente esquecidos e negligenciados. E não só por sucessivos governos, também pelos sindicatos e outras associações criadas sobre equívocos. Além de traduzir essa voz, a Igreja tem sido a única a interpretar correctamente os fenómenos sociais e a necessidade de respostas adaptadas aos desafios actuais. A Igreja também percebeu que as respostas assistenciais, embora urgentes, não são suficientes, tem de se dar o passo seguinte: antecipar e equipar as comunidades de ferramentas de sobrevivência, unir esforços e vontades, potenciar os talentos e as competências de cada um e de todos num objectivo comum, contribuir para um colectivo. A Igreja entendeu que o voluntariado pode ser encarado numa perspectiva muito mais abrangente, pode ser uma fonte de soluções para a sobrevivência diária dos mais frágeis e mais do que isso, um verdadeiro motor de arranque da economia nas pequenas comunidades.

O discurso que encontramos na Igreja hoje é um discurso actual, sintonizado com os desafios do séc. XXI e das suas palavras-chave: rapidez, diversidade, adaptabilidade, flexibilidade. E sintonizado igualmente com a noção de que todos podem participar, cada um no seu papel e na sua função. E sintonizado com a noção de que uma estrutura forte é a que se estrutura em proximidade, comunicação, troca e partilha. Claro que a sua voz é incómoda, porque a sua voz estruturante contraria toda a lógica da cultura corporativa. Mas a sua missão não é contrariar ou argumentar. A sua missão é a da vida prática, diária, simples, das pequenas comunidades, formando um tecido que se possa tornar cada vez mais resistente às pressões que as esperam.

D. Carlos Azevedo encontrou um título fabuloso que traduz este caminho: ribeiros de esperança. Porque é disso que se trata agora, de criar, acarinhar e proteger o curso da água dessa fonte que tudo cria, o amor universal, a energia vital, e vê-los cruzar-se e encontrar-se pelo caminho, essa água viva, formando a textura de um tecido vivo e sempre em movimento. D. Carlos Azevedo lembra as crianças, as mais frágeis e vulneráveis. Essa é uma das prioridades. As crianças e os mais velhos. As famílias mais afectadas. E é mais fácil atender as situações urgentes na proximidade, é essa a preocupação actual da Igreja ao envolver as diversas paróquias a fazer um levantamento social. Este é o ponto de partida para os passos seguintes. E aqui passar também para uma dimensão mais alargada do voluntariado: de assistencial, nas respostas urgentes às carências sociais, para motores potenciais de uma economia abrangente, utilizando formas criativas de troca de bens e serviços.

Adquirir produtos produzidos no país entra nesta perspectiva. Adquirir directamente a pequenos produtores entra nesta perspectiva. Adquirir nos mercados e nas mercearias de bairro entra nesta perspectiva. Trocar bens e serviços, directamente, entra nesta perspectiva. Obter e fornecer informação actualizada sobre os produtos e a sua disponibilidade com a melhor relação preço-qualidade entra nesta perspectiva. Acarinhar o que é genuinamente nacional. Estar atento ao que se passa à sua volta. O que pode fazer. Como pode melhorar o que faz. Alargar o seu perímetro existencial rotineiro. Ousar agir e agir de forma coerente e consequente. Olhar os outros nos olhos. Sentir a gratidão e ver a gratidão nos olhos de alguém. Ousar desligar a televisão. Ousar sair de casa e caminhar todos os dias. Ousar não atender o telemóvel sempre que toca. Ousar escolher que informação lhe interessa em vez de se deixar bombardear pelo marketing invasivo e abusivo. Ousar querer ser tratado como uma pessoa e não como um mero consumidor que tudo engole: informação, entretenimento, produtos formatados e empacotados. Ousar querer para si e para quem o rodeia o melhor possível. Ousar querer ser tratado como uma pessoa e não como um mero contribuinte, ousar querer que lhe expliquem porque só a si lhe colocam aos ombros o peso estatal.

Irmanarmo-nos não é fácil num país em que se promoveu a desconfiança mútua, a inveja, o novo-riquismo, o egoísmo, a falta de brio profissional, enfim, todos os pecados mortais do catálogo. Mas é o caminho. A Igreja sabe-o e já o iniciou. As pessoas simples, práticas e autónomas sabem-no e nele persistem. São os “ribeiros de esperança”, os motores da economia vista como uma fonte de vida.

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