Uma rainha renovada – mas nem tanto

Há uns anos, em Nova Iorque, comprei a autobiografia da rainha Noor da Jordânia. Eu, há que dizer, sou uma fã do género. Sou uma apreciadora da pequena História, daquela História que é contada identificando pessoas, mostrando-as causando ou reagindo aos acontecimentos macro-histróricos do seus tempos, enfim, vivendo. Tenho na minha estante abundantes biografias e as autobiografias, se bem escritas, são sempre livros deliciosos, mesmo sendo – ou por isso – a parte da verdade revelada necessariamente subjectiva e pessoalíssima e apenas o que se quer revelar e fazendo o autor uma valorização dos acontecimentos da sua vida não coincidente com a que esperávamos ou desejávamos. Comprei, como disse, a biografia da Noor da Jordânia e não me arrependi: escrito por uma mulher inteligente, conta com elegância e parcimónia a história de amor com o seu marido há pouco (na altura do lançamento do livro) falecido e dá uma perspectiva muito interessante, ainda que pouco usual, da vida de uma ocidental no mundo islâmico. Interessante (a perspectiva do mundo islâmico), no entanto, não descarta outros adjectivos menos agradáveis – de acrítica a israelofóbica, passando por muitos outros. A rainha Noor, americana de linhagem democrata, consegue espelhar todos os clichés que se esperariam de alguém saído de uma escola de mesquita: faz pouco de Ronald Reagan (apresenta-o como falando ao telefone com o rei Hussain lendo frases pré-escritas), culpa Israel quer da guerra de 1948 quer da guerra dos seis dias, justifica a revolução islâmica de Khomeni no Irão, dá graxa ao regime de Saddam Hussain no Iraque, culpa as políticas americanas e israelitas pelos ataques do 11 de Setembro (os talibans e a Al-Qaeda são uns coitadinhos que mais não puderam fazer que reagir aos maus senhores dos Estados Unidos e Israel), e por aí adiante. Os ataques dos jordanos aos palestinianos na sua Jordânia de eleição não parecem fazer parte do leque de conhecimentos da senhora, nem sequer as formas particularmente iníquas da sharia que vitimam mulheres em vários países islâmicos e ainda menos as formas ditas mais moderadas de maus tratos às mulheres por todo o mundo islâmico. Que a Jordânia não seja uma democracia não a afligia minimamente, que vivesse numa cápsula rica e ostensiva sustentada por um país pobre também não lhe trazia problemas de consciência. Especialmente hilariantes eram as crenças na imensa e poderosa influência (nunca concretizada) do marido, bem como o orgulho por o marido ter descendido de Maomé e, até, de Abraão e Adão! (Este último uma personagem mítica da Bíblia que foi uma personificação e não uma pessoa, e o anterior alguém proveniente dos mitos patriarcais cuja existência histórica não se comprovou).

Ora a rainha Noor voltou à carga. Desta feita nas páginas da Vanity Fair espanhola, mostrando-se bem menos loura do que anteriormente e com a face renovada por competente cirurgião plástico e apresentando-se vestindo vários vestidos de costureiros famosos, com decotes generosos e em poses um tudo-nada desaconselhadas a rainhas-mãe. Daqueles vestidos e daquelas poses que levariam uma mulher a ser vigorosamente vergastada se assim se apresentasse no espaço público de grande parte dos países islâmicos. (Em Israel não haveria problemas.) Na entrevista à VF, Noor lá dá conta do seu amor (surpresa!) às energias renováveis, lá se mostra levemente (muito levemente) indignada com as cargas policiais contra as populações em revolta ordenadas pelos regimes que sempre defendeu, e, qual cereja no topo do bolo, lá afirma, e com ‘convicção’: «Irán ha dicho que si desaparecen todos los arsenales nucleares de su entorno apoyará una zona libre de estas armas». Mas alguém duvida das boas intenções iranianas? E alguém leva a sério esta rainha? (E não, não é pelo bom gosto de vestir a divinal colecção outono-inverno 2011-2012 da Gucci, com as suas soberbas cores, enquanto reclinada numas escadas com patine.)

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