Nacionalizações?

Disse recentemente que por princípio era contra a detenção por parte do Estado de capital de empresas, fossem elas públicas ou privadas, com o objectivo deliberado de intervir na gestão ou manipular o mercado (por melhores que possam parecer à primeira vista as intenções).

 

Contudo, disse também que sendo obrigado a entrar, o Estado deveria assumir o seu papel de pleno direito, seja como accionista ou credor. Uma visão diferente por parte da nossa banca privada levou a que esta tivesse a ideia de escrever uma carta a Bruxelas que, a avaliar pela descrição dos argumentos tal como apareceram na comunicação social, mais não é que um rol de queixinhas e lamúrias. Recuso-me a qualificar a ideia mas não resisto a chamar a atenção para o facto de que num momento como este, em que um dos muitos problemas que nos afectam é o facto dos mecanismos de transmissão de liquidez à economia não estarem a funcionar em pleno, a interdependência entre o Governo e o sector bancário devia aumentar, não diminuir.

 

A Comissão teve o bom senso de desvalorizar o caso, dizendo que ainda não tinha recebido a carta e que analisaria o seu conteúdo quando a recebesse, naquilo que interpretei como “chutar para canto”, em boa linguagem futebolística. Não contentes com a resposta, os nossos banqueiros continuaram a falar de “nacionalização” do sector e voltam à carga com uma proposta de entrada do Estado no capital dos bancos ao valor nominal, que na prática não é mais do que tentar combinar com o Estado que este compre as acções a um preço que nada tem a ver com sua cotação no mercado (e não para benefício do Estado, claro).

 

Em primeiro lugar, convém dizer que a nossa banca (tal como o resto da banca europeia) está na situação em que está em parte por opção própria. É que a introdução de dívida soberana grega ou italiana nas carteiras para negociação é uma decisão de investimento que se correr mal não deve ser o contribuinte português a pagar. É certo que parte do problema também vem da desvalorização da dívida soberana portuguesa nas carteiras, mas quando o Estado Português estava a fazer emissões com prémios aliciantes não vi os nossos banqueiros a defenderem um modelo que permitisse aos investidores privados irem directamente aos leilões de dívida pública, como acontece noutros países. Na altura deu jeito não deu? Agora paciência…

 

Em segundo lugar, a adesão ao fundo da “Troika”, que eu saiba, é voluntária. Quer isto dizer que se os nossos bancos encontrarem quem os financie com melhores condições, então não sei do que é que estão à espera. O problema é que quando o outrora maior banco privado nacional e maior empresa do mercado cota a 10 cêntimos, já perdeu mais de 80% do valor desde o início do ano e agora está na metade de baixo da lista de empresas do PSI20 em termos de capitalização bolsista, mostra bem que se não arranjam fiadores (pelo menos farto-me de ouvir falar da dependência dos nossos bancos face ao BCE e da secagem de liquidez que encontram nos mercados internacionais, justificação para as alterações ao financiamento das famílias e empresas), muito menos arranjam sócios (accionistas é o termo exacto).

 

Em terceiro lugar, numa altura em que falta dinheiro, dificilmente é justificável que se passe à banca um cheque em branco. É que injectar simplesmente dinheiro, que vai ter que ser pago com os impostos de todos, colocando o novo accionista controlo sobre a gestão, sem controlo sobre a política de pagamentos (dividendos) e com um valor de pagamento desfalcado à partida não entra na cabeça de ninguém.

 

Hoje, Durão Barroso, uma pessoa que tenho por normalmente branda em termos de comentários, disse algo que espelha esta opinião com uma dureza que lhe reconheço invulgar. Disse de forma taxativa que “Ninguém obriga a banca portuguesa a recorrer ao fundo de recapitalização” e que “se encontrarem financiamento no mercado e se conseguirem a sua recapitalização através dos accionistas, tanto melhor”.

 

Para quem goste de ditados, é quase um “não sejam pobres e mal agradecidos”, o que vindo de quem vem deixa antever que mesmo internacionalmente este tipo de conduta não está a reunir grandes adeptos. E para um sector visto como co-responsável pela crise que vivemos, esta não será a melhor altura para dar azo a interpretações erradas sobre o papel, o posicionamento e a importância do sector para a economia.

 

Talvez tivesse sido mais inteligente (digo eu) adoptar um discurso como o de Cavaco Silva e questionar porque razão a nossa banca se vai ver obrigada a respeitar um enquadramento mais restritivo do que os bancos no resto da Europa.

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