Vamos lá exportar? Não custa nada

Confesso que o discurso da necessidade de aumentarmos as exportações já me começa a dar nos nervos.

Não que seja mentira que Portugal tem que exportar mais, nem que o caminho para uma recuperação mais rápida seja esse, mas o problema é que tal como está a ser apresentado torna-se incoerente de tão vazio de conteúdo.

O que os nossos governantes dizem é que temos que exportar mais. Ponto final. O problema é só um: não se exporta por decreto!

O ministro desdobra-se em feiras e certames, levando pela mão dezenas de empresários, mas por muito que nos deixemos enebriar pelo crescimento das exportações, quem olhe para os números chega a uma triste conclusão: não chega!

Com este ritmo de crescimento das exportações é impossível  conseguir conter a redução nominal do produto. Não chega sequer para equilibrar as contas externas na Balança de Transacções Correntes (a taxa de cobertura das exportações pelas importações é inferior a dois terços), quanto mais para absorver a acomodação das restantes variáveis do produto, onde se registam travagens “a fundo”.

Tal como no tema da produtividade, o burro sou eu, que ainda não consegui responder a duas perguntas que para mim são as peças chave do puzze mas que pelos vistos não interessam a mais ninguém (porque não vejo mais ninguém pensar nelas): (i) vender o quê?; (ii) vender a quem?

Na primeira, temos vários problemas: uma estrutura de pequena dimensão, com pouca capacidade de absorver choques, descapitalizada e desprovida de fundos próprios, totalmente dependente de crédito (que acabou) e produtora de bens de baixa tecnologia (a % de bens de alta tecnologia é inferior a 3%). Chegamos assim a uma triste conclusão: não temos folego para competir na 1ª liga da Europa, e para a 2ª liga temos concorrentes (nomeadamente asiáticos) que vendem a mesma coisa a uma fracção do preço, por mais que isso seja com base num jogo em que as regras não são iguais para todos. Pior que isto, estamos a ir pela diferenciação pela lógica dos custos, que não passa de uma vantagem competitiva aparente.

Na segunda, as coisas não são melhores: a maioria das nossa exportações são intra-comunitárias! Isto quer dizer que estamos particularmente expostos ao risco do abrandamento económico na Europa (dito de outra forma, os nossos clientes estão mais pobres!)

Se somarmos a isto o facto do motor da nosso desenvolvimento nos últimos 15 anos ter sido “o cimento” e o Estado inundar as empresas com burocracia e impostos (entre eles, nos custos do trabalho para o empregador, que encarecem o custo da mão-de-obra nacional), não é difícil ver que o que se avizinha será tudo menos fácil.

Qual era a resposta que o nosso Primeiro Ministro tinha? Trabalhe-se mais meia hora e exporte-se o pastel de nata. É ridículo! E a Jerónimo Martins foi só mais um caso de uma empresa que não dexou de o demonstrar, respondendo à letra a este chorrilho de disparates.

Tão mais ridículo porque estas medidas dão cabo de uma coisa que custa uma pipa de massa e de vez em quando agitam a paz social: a segurança social. Porquê? Porque conduzem à redução das condições de vida e isso tem só um problemazinho: emigração, principalmente das camadas mais jovens.

Ora como a nossa Segurança Social não passa de uma “Dona Branca” legalizada, em que os que descontam pagam para os que já sairam, se tivermos emigração jovem então temos cada vez menos gente a pagar e, com o envelhecimento populacional, cada vez mais gente a receber e mais um “buraco” para gerir em breve.

A solução rápida para o problema parece-me passar mais pela escolha de áreas de actuação estratégica e importação de know-how através de investimento estrangeiro nessas áreas, apoiado numa reforma quer da fiscalidade quer do sistema educativo, principalmente do ensino superior.

Gostava de perceber porque é que a aposta não passa, por exemplo, pela redução de custos de transporte e dos tempos de stockagem como vantagem competitiva para empresas da 1ª liga (as tais que produzem bens dificilmente copiáveis e portanto têm vantagens competitivas reais), dada a nossa proximidade geográfica aos nossos “clientes” (mais do que em salários baixos de mão-de-obra pouco qualificada e/ou desajustada às necessidades reais dessas empresas), por não se afundarem as empresas em impostos e burocracias, pela crição de cursos técnicos com real empregabilidade nesses sectores e pelo fim desta mentalidade provinciana que mais vale ser um Doutor desempregado do que um técnico qualificado com um vencimento ao final do mês.

Mas isso sou eu, que sou burro e não percebo nada disto.

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