Confirma-se: o cinema já não é o que era

O Artista, como dizê-lo sem ferir sensibilidades?, é mais um exercício de identificação de clichés (actores reais, personagens, filmes, música) do que propriamente um filme.

O guião é paupérrimo. O que salva a obra é a edição (sobretudo quando brinca com a edição dos filmes das décadas 20, 30 e 40) e a surpreendente cena final em que se ouve a respiração dos actores-dançarinos e a própria respiração do realizador (de tão inédita e criativa que até me assustei!, não estava preparada para aquela súbita centelha de criatividade!) Também interessante o afastamento final da câmara, como o filme em que o Kirk Douglas é realizador e entra a Lana Turner.

Sim, um exercício de identificação de clichés: o actor famoso do mudo que não sobrevive ao sonoro, o percurso de uma actriz, tudo demasiado linear. E às tantas, dou por mim a antecipar as cenas, uma a seguir à outra: a falência iminente (fácil), o pedido de divórcio da mulher (fácil), a compra das peças leiloadas pela actriz agora famosa (fácil ainda), pegar fogo às fitas é que não me passaria pela cabeça porque é um material altamente inflamável e dali não sairia ninguém vivo, nem o pobre do cão (difícil, mas a minha irmã adivinhou!), a ida para o hospital onde ela o vai visitar (fácil), e o leva para casa (esta não adivinhei), a descoberta das peças leiloadas numa sala escura (a minha irmã conseguiu adivinhar mais esta!), a actriz a conduzir sem saber conduzir prestes a ter um acidente (fácil), a tentativa de suicídio com uma pistola e as letrinhas BANG! (fácil, fácil), e quando estavamos à espera deste final, pronto finalmente acabou o nosso suplício cinematográfico… não!, a pistola não disparou! E a actriz aparece na hora H! Socorro!, o melodrama ainda não acabou! Finalmente dançam na cena mais divulgada do trailer (com que nos enganaram, pois passei todo o filme à espera de os ver sapatear! E nem isso fazem lá muito bem…)

Considero-me uma pessoa simples e tolerante que ama o cinema como forma de arte e comunicação. E é por isso que insisto nisto: homenagem ao cinema é trabalhar muito, muitíssimo, para passar no teste. O cinema já tem uma história riquíssima, complexa, magnífica, desde a megalomania mais louca à maior simplicidade artística. Mas esta preguiça e negligência atordoam uma cinéfila como eu. E o respeito pelos espectadores? Já não existe? O respeito pelo cinema já vimos que não.

E o pior é que esta ausência de respeito pela inteligência e sensibilidade dos consumidores espalhou-se como um vírus para todas as formas de comunicação entre humanos.

Resta-me, desta atribuição dos óscares, a cantilena do Billy Cristal saltitando para um lado e para o outro (só a um entertainer perdoamos tudo…), que isto é um pouco como um tiro aos pratos numa feira, de vez em quando acerta-se, mas só de vez em quando…

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