Ramsay’s Kitchen Nightmares: quando se fica cristalizado no passado e a alimentar o próprio ego – 2

O segundo episódio que vi da série Ramsay’s Kitchen Nightmares foi o do restaurante “Rococo” gerido por um chef, Nick Anderson, que não consegue clientela suficiente para se manter e está à beira da falência. É aqui que entra o nosso temperamental Gordon e a sua constante f word (que, como já aqui disse, se tornou a sua imagem de marca e nome de uma nova série). Interagindo com o Nick e a sua mulher, Susana, Gordon identifica o obstáculo: Nick está cristalizado no passado, no conceito de cozinha requintada dos anos 90 que alimenta o próprio ego (dos chefs), na sua “glória passada” das estrelas Michelin, nos manuais que ainda guarda religiosamente.

O próprio nome do restaurante pode ser um obstáculo, neste caso isso é mais do que evidente, “Rococo” soa a pretensiosismo, a um requinte e a preços inadequados ao local. Para Nick foi outra mudança difícil, mas lá consegue finalmente aceitar o novo conceito: o simples e caseiro “Maggie’s” com comida da região, baseada na qualidade dos produtos, e com preços muito mais acessíveis.

Este episódio é muito elucidativo, pois acompanha um processo de luto por um passado que se interiorizou como “glorioso” em termos de auto-valorização, como se dali para a frente se procurasse atingir os mesmos parâmetros mas noutro cenário e noutro contexto, isto é, num local e período temporal onde tudo isso já não faz sentido. Este processo é doloroso porque implica largar uma auto-imagem construída a partir de prémios, num passado em que ainda se quer manter, mesmo que tudo à sua volta lhe dê as indicações do falhanço.

Frequentemente associada a um trauma emocional ou a uma perda, a cristalização no tempo implica voltar ao acontecimento ou ao lugar para conseguir despedir-se, sair dali e mudar. Reconhecer a paragem no tempo, a incapacidade de ver tudo a mudar à nossa volta, a dificuldade de adaptação a novos cenários e a novos desafios, é o primeiro passo para um novo percurso.

Reparem como o Gordon insiste neste ponto fulcral: o restaurante não é sobre o chef, o seu ego, a sua importância, as estrelas Michelin que já teve, mas os clientes. Dar aos clientes uma comida simples, honesta, despretensiosa, aquilo que eles esperam. A própria noção de sucesso fica ligada à satisfação dos clientes e à sua resposta em termos de frequência do restaurante.

Não resisto a fazer um paralelismo do micro para o macro, e neste caso para a política, os decisores do sistema, as lideranças actuais europeias:

– reconhecimento do estado de cristalização no tempo (manter um sistema e escolhas destinadas ao falhanço político e económico);

– receptividade e disponibilidade para a mudança de perspectiva, do egocentrismo (interesses corporativos) para os clientes (cidadãos);

– uma comida simples, honesta, despretensiosa, isto é, as respostas adequadas às expectativas criadas (gestão das expectativas baseadas na verdade, em informação correcta).

Se entretanto identificarem mais paralelismos, enriqueceremos o nosso menu. E podem usar a f word, tal como o Gordon.

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