Como evitar acordar o urso

Sempre gostei do Domingo de Ramos, desde que pela primeira vez levei um raminho de oliveira. A ideia daquele raminho simbolizar a paz agradou-me logo. A paz, esse conceito que na altura se resumia a uma ideia vaga de sorrisos e palavras suaves entre pessoas, grupos, comunidades.

Hoje sei que a paz apenas se atinge num determinado grau civilizacional, ou com muita sorte, quando se consegue evitar acordar o urso. Se temos a desdita de ter o pote de mel para um determinado urso – que pode ser a simples geografia, ou o subsolo, ou quaisquer outros interesses – mais cedo ou mais tarde ouviremos o seu rugir e a sua investida. Isto serve para todos os desequilibrios relacionais: vai do micro, entre duas pessoas, ao macro, entre comunidades, paises, grandes areas regionais.

Uma pessoa simples, comum, nem sempre se apercebe que a sua vida foi alterada de forma significativa pelas manobras dos ursos. Espetam-lhe apenas com o discurso reduzido para consumo de massas: a inevitabilidade disto e daquilo, coma e cale, sempre foi assim, altos e baixos, vacas gordas, vacas magras. E o urso vai ao pote.

O que pode uma pessoa simples, comum, fazer para sobreviver a esta logica de poder que a ultrapassa? Estar atenta, antecipar-se se puder, informar-se nos locais certos, e confiar na sua propria capacidade de observar, analisar, concluir. E organizar-se em comunidades que hoje ultrapassam geografias. 

Aprendemos desde cedo a respeitar os outros que connosco partilham um territorio mas ninguem nos ensinou a respeitar a nossa propria natureza, aquilo que nos move, a nossa vitalidade. Obedecemos a regras absurdas apenas porque foram arquitectadas pelo poder. Mas nunca nos ocorre questiona-las de forma civilizada e nos locais proprios. A paz constroi-se a negociar sobre certas bases e dentro de certas margens de manobra.

Num determinado grau cicivilizacional, que por vezes idealizo, a paz nem precisaria de ser mencionada nem lembrada, as comunidades resolveriam os conflitos naturais gerindo as condicionantes e as atenuantes de acordo com o valor supremo: o respeito pela vida de cada um e de todos os envolvidos. Claro que, nesta fase de um percurso colectivo, os ursos actuais seriam seres obsoletos, talvez os vissemos num qualquer museu de especies extintas, devidamente empalhados.

Este domingo quero levar, passados tantos anos, um raminho de oliveira.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Sapatos Ortopédicos, Vitaminas. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s