A informação que interessa aos cidadãos não é da responsabilidade dos jornalistas

O título do post estava para ser: “As perguntas certas às pessoas certas”, mas também poderia ser: “De que é que os socialistas não querem que se fale?” Ou ainda: “A intriga nacional” (cada vez gosto mais deste título para um livro, só que o autor teria de conhecer bem os meandros dessa teia, os mexericos de corredores do poder, todos os ingredientes de um guião do género, com personagens de profissões tão diversas mas com a mesma cultura da motivação mesquinha, da delação e da incriminação do próximo).

O que temos visto correr nas televisões, e sobretudo na última década, é o desfilar do pior que a cultura nacional produz: a motivação mesquinha, a delação descarada, a natureza inquisitorial que julgávamos ultrapassada, a ausência de responsabilidade cívica e de respeito pelo próximo, a grosseria e a boçalidade.

Qual é a informação que os jornalistas deveriam andar a tentar obter para informar os cidadãos? Se é que informar é ainda o objecto da sua actividade profissional. Posso dar uma ajudinha? Aí vai:

1) Qual é a verdadeira dimensão do prejuízo financeiro que o contribuinte presente e futuro vai pagar pela gestão ruinosa do anterior governo?

2) Quais as formas de corrigir as consequências dessa gestão ruinosa que aliviem o peso que recai sobre esta geração e as gerações futuras? Como estão a decorrer esses processos?

3) Quais as expectativas legítimas dos cidadãos, as atenuantes digamos assim, pois já estão a pagar um preço elevadíssimo pelos erros da gestão ruinosa? Quais são as áreas do despesismo público que devem ser agora consideradas? Como estão a andar esses processos?

Os holofotes das notícias, por alguma razão, não incidem sobre os temas que verdadeiramente interessam aos cidadãos, e isso é que me deixa perplexa. A informação que interessa aos cidadãos não é da responsabilidade dos jornalistas.

Enquanto ao lado se tratam assuntos verdadeiramente importantes para os cidadãos, a análise e avaliação das PPPs e a análise e avaliação da nacionalização do BPN, dois assuntos que vão pesar e muito nas suas vidas e nas dos seus filhos, para onde estão orientados os holofotes do jornalismo nacional? Para um outro assunto que está a ser tratado por três organismos. Para um assunto em que um dos intervenientes (a que eu chamei 007) pediu para falar e ainda não foi ouvido. Mas que já circula até aos pormenores do mexerico na boca dos jornalistas e dos comentadores de serviço.

Se analisarmos este fenómeno à lupa, percebemos que actualmente o que os jornalistas fazem é mais do domínio do espectáculo e entretenimento do que propriamente do domínio da informação. A forma estridente e ofegante como falam, os temas mais diversos em que se movimentam com à vontade sem ter os dados na mão, são mais próprios de um anfitrião dos ídolos do que de um verdadeiro jornalista. Com uma ou outra excepção, raríssimas.

E se pensarmos bem, hoje já nem precisamos de lhes pedir essa competência da responsabilidade cívica da verdadeira informação lhes passar ao lado. É que, a pouco e pouco, a informação que interessa passa a estar disponível a cada vez mais cidadãos que a querem obter. As gerações da internet já não estão sujeitas à influência da sua mediação. Quando precisam da informação que importa, obtêm-na directamente.

À semelhança dos cidadãos, também os gestores políticos têm à sua disposição as ferramentas essenciais de comunicação directa das mensagens que querem dirigir aos cidadãos, sem terem de passar pela mediação jornalística onde vão ficar coladas, embrulhadas, adulteradas, para servir o espectáculo mediático dos ídolos.

À semelhança dos cidadãos e dos gestores políticos, também áreas sensíveis tratadas na justiça devem evitar passar por essa mediação do espectáculo em que tudo se resolve na rua. Ligue o nº tal se acha que está inocente, ligue o nº tal se acha que é culpado, é a cultura do entretenimento mais perverso.

Fala-se em liberdade de expressão num país sem cultura de liberdade, porque há uma total ausência de responsabilidade cívica. E sem responsabilidade cívica, sem respeitar o seu papel, o perfil da sua actividade, as suas competências próprias e os limites ditados pelo respectivo código deontológico, como fica a liberdade de expressão?

Finalmente, a questão que era um dos títulos possíveis deste post: De que é que os socialistas não querem que se fale?

As elites mediáticas nacionais já nos deram algumas indicações: a privatização da RTP e a privatização da TAP. A que eu acrescento: a análise e avaliação dos contratos ruinosos das PPPs; a análise a avaliação de todo o processo anterior e posterior à nacionalização do BPN.

Os cidadãos têm o direito de saber o que se andou a fazer com os dinheiros públicos, o quanto e o porquê das dívidas que se contraíram. Os cidadãos esperam legitimamente que se procure fazer o que se puder, ao nível da gestão política, para aliviar o peso que neste momento recai exclusivamente do seu lado.

Os gestores políticos têm, assim, uma responsabilidade cívica acrescida de os manter correctamente informados. É esse agora também o seu papel. O problema da intriga nacional ir-se-á atenuando gradualmente e sendo substituído pela cultura da responsabilidade cívica. Tal como os cidadãos revelaram recentemente na recolha para o Banco Alimentar.

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