O jubileu na perspectiva da própria Rainha

Partindo do post do André, seleccionei algumas fotografias do jubileu. Algumas têm um impacto simbólico, como a da procissão de barcos engalanados no Tamisa. Um rio simboliza um percurso, onde se juntaram, de forma perfeita, a unidade identitária e a ressonância afectiva e festiva. Não pude deixar de pensar: Este é, de certo modo, o fim de uma era em que é ainda possível uma ligação ao passado. A partir daqui tudo é incerto. Não me refiro às convulsões financeiras nem às incapacidades políticas, mas à cultura de base de toda uma sociedade.

Por isso a importância da tradição a que se refere o André: ” … tenho um grande respeito pela monarquia por representar, acima de tudo, uma tradição; são as tradições que nos conferem identidade, sentimento de pertença, educação.”

Isabel II soube desempenhar um papel de ligação do passado com o presente, mantendo a estabilidade de uma instituição. Na geração seguinte, só o filho mais novo, o discreto Edward, conseguirá manter a dignidade do papel que se espera de uma família que não pode ser uma família normal, porque é em tudo extraordinária.

Daí o impacto simbólico da fotografia seguinte:

Vemos a Rainha com o neto mais velho, William, estando Carlos na penumbra (pois é, claramente, unfit for the job). Esta é quase, simbolicamente, uma passagem de testemunho. William tem aqui uma responsabilidade dupla: manter os créditos de confiança e respeito angariados por uma avó que soube sempre manter-se no seu lugar, que é, por natureza, em tudo extraordinário (e para isso, terá de se adaptar à ideia de que não é uma pessoa comum nem nunca poderá ser); e adaptar-se a uma mudança cultural profunda, em que tudo é absorvido e triturado numa cultura trash pop, que não respeita os valores tradicionais, que vive na dimensão do supérfluo e do descartável, que consome tudo de forma acrítica, que endeusa a aparência física e depende da aprovação social.

Coloco a dimensão cultural à frente das convulsões financeiras e das incapacidades políticas, porque é a cultura de base de um povo que lhe confere viabilidade. William funciona como um símbolo identitário nacional, uma referência, mas poderá ter, além disso, uma influência benéfica se souber manter-se no seu lugar. E um Rei não é uma pop star.

Escolhi esta fotografia a que chamei “simbólico perfil”, porque nos mostra uma Rainha pensativa, séria, a perscrutar o horizonte. Não pude deixar de imaginar o que estaria a pensar, qual a sua perspectiva do jubileu, do seu simbolismo, a marcar uma nova página em tudo incerta. Pensaria no futuro da nação a que um dia prometeu dedicar a sua vida, fosse longa ou curta? Pensaria na forma de preparar o seu sucessor, no que lhe diria? Pensaria na vulnerabilidade em que William se irá sentir, rodeado da maior puerilidade e mediocridade (Carlos, Camila e Cª?) Pensaria em todos esses anos, em todos os sonhos perdidos de tantos que a rodearam, porque a uma Rainha não são permitidas veleidades dessas como sonhos pessoais? Bem, a não ser o casamento… talvez a única veleidade que lhe foi permitida.

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