A técnica governamental do “ajustamento”

Enquanto não segue a ajuda ao ministro Gaspar com a lista dos cortes às excepções de estimação do governo, remetendo-lhe o argumento utilizado para cortar nos contribuintes – situações excepcionais exigem medidas excepcionais -, a farmácia foi recolher informação adicional. E encontrou, para já, um texto de Pacheco Pereira que analisa muito bem a técnica governamental (e tecnocrata em geral), do “ajustamento”.

O PP colabora, paradoxalmente, num dos programas do debate televisivo que está para a Sic como o Professor Marcelo está para a TVI. Não sei se o PP tem disso consciência, mas pela forma minuciosa como desmonta as peças de cada assunto dá-ma ideia que sim, que sabe estar a colaborar na manipulação da opinião pública.

Mas de vez em quando… PP inspira-se… e quando isso acontece, excede as nossas melhores expectativas. Foi o que aconteceu precisamente com este texto, Ajustamento, que nos prende do princípio ao fim, que faz sentido, que é uma forma de organizar aquilo que intuímos sem ter conseguido dar-lhe forma. Este artigo foi escrito para o Público do dia 16 e colocado no Abrupto dia 18. Vale a pena ler, até porque as ilustrações são magníficas. De qualquer modo, não resisto a transcrever aqui alguns excertos e a destacar algumas partes:

“Em vez de se dizer que se cortam salários, diz-se que se ‘ajustam’ salários. Em vez de se dizer que se despede, diz-se que se ‘ajusta’ a mão-de-obra. Em vez de se dizer que se aumentam os impostos e se cortam despesas, diz-se que se ‘ajusta’ o orçamento. ‘As empresas estão a fazer o ajustamento’, o ‘país precisa deste ajustamento para crescer’, ‘a economia está a ajustar-se’, ‘o nosso país está a ajustar-se muito depressa’, são algumas das frases que ouvi nos últimos dias por parte de alguns dos actuais detentores do poder.”

Sem dúvida, até a palavra se banalizar e normalizar. Mas a análise de PP vai mais longe: “A palavra é usada essencialmente como um eufemismo, para dizer aquilo que não se pode dizer, mas transporta consigo mais do que este uso instrumental corrente. Os seus melhores cultores nos dias de hoje, os ‘ajustadores’ Vítor Gaspar, António Borges, Passos Coelho, por esta ordem, nem sequer se preocupam muito em usá-la como eufemismo, embora também o façam, mas sim como um instrumento conceptual para traduzir uma ideia sobre a economia, a sociedade, as pessoas.”

Interessante. “Vinda do jargão das escolas de economia, o seu uso, como o de todas as palavras com papel central no discurso político, tem um significado em termos ideológicos. Como antes se dizia, não é neutra. A gente desfia-a, e com ela vem todo um programa e todo um pensamento. Uma das vantagens das humanidades, que os ‘ajustadores’  naturalmente desprezam, é perceber demais o que palavras como esta significam, para as analisar exactamente onde elas estão a ser instrumentais: no discurso político.”

E continua: “É por isso que a sua ideologia é a da tecnocracia, e os seus mais ilustrados mentores – os dois primeiros da lista anterior de nomes – têm a convicção de que estão a enunciar uma verdade científica do tipo das leis de Newton, ou uma espécie de axioma de Euclides como o ‘todo é maior que as partes’. Numa intervenção recente, António Borges falava das ‘leis da economia’ como se estivesse a falar das leis da física. Ora, o problema é que nem há propriamente ‘leis da economia’ unívocas, nem estas poderiam ser alguma vez semelhantes às da física, nem as da física são assim tão seguras, e nem sequer o ‘todo é maior que as partes’ se aplica em toda a matemática. As coisas são fuzzy, cintilam demasiado e o ‘ajustamento’ não tem certamente a dignidade religiosa de uma espécie de verdade revelada pelo deus da economia.”

“Muito bem, a economia portuguesa (a sociedade, o Estado, Portugal, convém sempre acrescentar porque o conceito de ‘ajustamento’ está longe de ser meramente económico-financeiro) precisa de ‘ajustamento’ porque ‘décadas’ ou ‘anos’, conforme as versões, a tiraram dos eixos do seu estado ‘natural’. Mas se fizermos as perguntas certas em breve percebemos que a resposta está longe de ter que ver com as ‘leis da economia’, mas com as menos conceituadas leis da política.”

Como PP observa, o início do desvio varia conforme as perspectivas e as convicções de cada um e pode ir até ao 25 de Abril, mas a questão mantém-se relativamente à sua correcção: “Eu não diminuo o valor moral de não se gastar mais do que o que se ganha, mas não o transformo numa descrição do ‘estado natural’ da economia. É bom princípio, mas não chega. Há dez anos era racional pagar um empréstimo da casa, em vez de um aluguer. Hoje não é, mas isso não torna irracional e irresponsável a decisão do passado. Os ‘ajustadores’ hoje dirão que é ‘natural’ que percam a casa, o emprego, o salário, porque isso é que é a ‘verdade’ da economia, o preço da restituição pelo ‘ajustamento’ à ‘verdade’ de que a economia se desviou pela perversidade da política.”

Não há ‘leis da economia’, como não há ‘leis da sociedade’, há pessoas, interesses, grupos, ideias, diferentes escolas e diferentes soluções, diferentes tempos e diferentes modos. Eu não sou relativista porque não penso que valha tudo o mesmo, e porque nós podemos escolher. Em democracia esta escolha faz-se pelo voto, e não se vota em teorias sobre as “leis da economia”, nem em experiências de laboratório. Felizmente, o voto ainda não está ‘ajustado’, apesar de alguns esforços europeus. Felizmente, a opinião ainda não está ‘ajustada’, apesar de alguns esforços portugueses.”

PP é optimista em relação ao voto europeu e em relação à opinião dos portugueses, pois são escolhas muito limitadas e também manipuladas pelo discurso político em que entram palavras como esta: ajustamento. São escolhas muito limitadas e manipuladas a começar por este tipo de programas televisivos de formação da opinião pública que, paradoxalmente, PP ajuda a validar. O círculo fecha-se.

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