A que América se dirige Clint Eastwood no seu discurso?

Esta campanha eleitoral americana é uma oportunidade única para observar várias perspectivas culturais, algumas facilmente identificáveis outras mais complexas e difíceis de apreender. Nos diversos discursos podemos identificar valores, prioridades, atitudes, e mesmo planos de acção concretos. O que nos leva à cultura subjacente, a uma forma de olhar os outros, a uma perspectiva cultural.

Clint Eastwood é um dos últimos símbolos de uma época do cinema americano: o herói solitário que defende os mais frágeis quando mais ninguém quer saber deles, da linguagem prática e precisa do sim ou não, da responsabilidade individual, do compromisso, da liberdade entendida como não aceitação de constrangimentos injustos de interesses corporativos. O valor do trabalho é a base de uma vida digna, um direito fundamental actualmente subtraído a 23 milhões de americanos, pelo que o unemployment sobressai no seu discurso. O valor do businessman em contraste com os intellectuals aplicado aos democratas de forma sarcástica, os lawyers que ficam encravados na avaliação dos prós e dos contras, na ambiguidade, na dificuldade em passar à acção e em resolver problemas. E se um político não cumpriu o que prometeu, falhou a missão, então nesse caso deve ser despedido.

A que América se dirige Clint Eastwood no seu discurso? A resposta a esta questão ajuda-nos a compreender a complexidade da época actual, em que várias perspectivas culturais se cruzam, chocam, raramente se encontram, e geram respostas mais emocionais do que racionais de lado a lado. Clint Eastwood pôs a internet a tweetar, sobretudo desabafos de admiradores desiludidos.

A que América se dirige Clint Eastwood, pois? A uma América que ainda existe certamente, nalgumas camadas populacionais e nalgumas regiões. Os valores da liberdade individual, da responsabilidade individual, de não ter de dar satisfações sobre a sua vida aos politicians, do direito fundamental do trabalho como base de uma vida digna que permite precisamente a autonomia individual, ainda faz ressonância numa grande parte da América. We own this country é uma frase de filme, uma declaração de independência face a um poder burocratizado e centralizado. Os políticos deveriam estar ao serviço dos cidadãos e não o contrário, os cidadãos ao serviço dos políticos.

A América a que Clint Eastwood se dirige, pois, coexiste com a América da velocidade da informação, das redes sociais, da complexidade de soluções, da informação partilhada, do colectivo sobre o individual, da autonomia entendida de forma diferente e noutras dimensões da vida, dos movimentos de mudança, das alterações profundas na organização social, do princípio do prazer sobre o dever, etc. A sua coexistência será mais ou menos bem sucedida e pacífica conforme a capacidade dos políticos perceberem e interpretarem essa complexidade cultural.

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2 respostas a A que América se dirige Clint Eastwood no seu discurso?

  1. teixeira diz:

    “Os políticos deveriam estar ao serviço dos cidadãos e não o contrário, os cidadãos ao serviço dos políticos”.
    Esta frase tem a cor do ouro.

    • agfernandes diz:

      Teixeira
      Muitos cidadãos, tal como Clint Eastwood, colocam essa questão no centro das suas preocupações porque, na sua perspectiva cultural, toca num ponto essencial: resgatar a margem de liberdade individual.
      Ana

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