A percepção da realidade

Para introduzir o difícil tema medidas do governo-manifestação do dia 15, o Professor Marcelo recorreu à analogia médico-doente. Bem, esta analogia já não é original, tem sido utilizada com os termos remédio, xarope, etc., só que o doente é sempre o mesmo.

O problema é que esta farmácia central percebe alguma coisa de remédios e aqueles a que o Professor Marcelo se referiu não constam do nosso stock nem são recomendados pela OMS. Outro problema: a receita do médico, neste caso o governo, vem sem prazo-limite. Outro problema ainda: a prática de medicina, neste caso do governo, é acompanhada pela supervisão de uma junta médica, neste caso a troika.

Mas o maior problema está mesmo no diagnóstico da doença e na sua causa. Contrariamente ao que o Professor Marcelo deixa no ar, a doença terá sido mesmo provocada por sucessivos remédios de sucessivos médicos-governos. É, pois, natural que os cidadãos percepcionem o remédio como mais um veneno e que, por instinto de sobrevivência, recusem tomá-lo.

É por tudo isto que a analogia médico-governo, doente-país e remédios-medidas, não se aplica neste caso. A não ser para explicar que o médico provocou a doença e ajudou a propagá-la, e que agora exige ao doente que continue a adoecer.

A percepção da realidade é a fase actual em que as pessoas comuns se encontram. É um processo doloroso porque implica sair do conforto protector, embora ilusório, de uma salvação que viria, de um fim do pesadelo à vista, do benefício da dúvida. Mas a realidade impôs-se: estavam cada vez mais desprotegidas e entregues à sua sorte, o pesadelo não teria fim como uma pena perpétua, e o benefício da dúvida tinha caducado.

O encontro na rua, lado a lado, com outras pessoas em idênticas circunstâncias, alivia o peso doloroso do isolamento e da ausência de esperança, porque a empatia é um laço muito forte, é o reconhecimento de uma comunidade humana alargada. Além disso, permite melhorar como cada um se vê a si próprio e como vê o país, já não de conformados desalentados mas de sobreviventes corajosos.

A percepção da realidade é o primeiro passo para recuperar a vitalidade e o ânimo.

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