Só hoje encontrei tempo e disposição para acompanhar o primeiro debate presidencial americano. Contrariamente à generalidade das opiniões que entretanto li, Obama ganhou claramente o primeiro debate da campanha. A energia que os analistas vêem em Romney pareceu-me puro nervosismo, agitação, pilhas Duracell e uma postura artificial. É por isso que o TPC de hoje inclui a observação atenta da linguagem não-verbal do candidato republicano, gestos, movimentos, olhar. Quanto ao cansaço que os analistas viram em Obama, a mim pareceu-me ter sido bem assumido pelo próprio, não sou perfeito, o seu lado humano, falível, a sua postura calma, de pés bem assentes no chão e na realidade, que lhe dão a credibilidade que precisa para merecer os votos dos americanos, sobretudo os que têm sido excluídos da fórmula republicana. Também neste caso o TPC inclui a observação atenta da sua linguagem gestual, postura, e olhar.
Romney traz consigo a experiência de anos a vender produtos. Parece tirado de um cartaz publicitário dos anos 50, o sorriso em grande plano e o produto na mão. O problema é que já não vivemos nos anos 50, o futuro não parece brilhante e os americanos precisam de um homem de carne e osso na liderança. Obama pode não ter a audácia que Matt Damon e muitos outros desejariam. Mas das duas lideranças possíveis, é a que melhor pode enfrentar os desafios do séc. XXI. Também parece ter a capacidade de assumir os erros, de reavaliar a situação e de recomeçar. Assim como a capacidade de partilhar ideias e de colaborar, fundamental numa liderança actual. Além disso, as prioridades que apresentou aos americanos pareceram-me as adequadas. E a evolução civilizacional de uma democracia saudável está numa classe média forte que contrarie a distância obscena ricos-pobres, mais própria de tempos que julgávamos ultrapassados. Finalmente, agradou-me a cordialidade do debate, e essa capacidade ainda não a vemos por cá.
A escolha americana, comparada com o nosso dilema, é fácil. Por cá não temos soluções governativas. O nosso é um dilema bem difícil de resolver. Os grupos principais – PSD e PS – não servem para a solução nem para a construção do futuro. Os seus elementos estão instalados nas empresas públicas, nas PPPs, na CGD, em fundações, um até foi promovido ao BCE, etc. Nos restantes grupos, a cultura de base necessita de ser actualizada. O Presidente faz a sua gestão final com o risco mínimo. A sociedade civil está fragilizada e vulnerável. André Freire diz que há lugar para mais um partido. Concordo. Mas não lhe chamem partido e cuidado com o casting. Porque não desta vez com mulheres à frente? A força feminina está na sua incrível vitalidade. Enquanto os homens que vemos no poder gastam parte da sua energia vital a alimentar os seus egos masculinos, a querer aparecer, preocupados com a sua imagem e popularidade, hipnotizados com a sua própria voz e possível influência mediática, as mulheres fazem contas, trocam ideias, pensam em soluções criativas. O Banco Alimentar é disso um exemplo. A maior parte dos voluntários anónimos deste país maltratado e negligenciado são mulheres e jovens. Como TPC proponho que tentem conceber um partido com uma cultura de colaboração e de ruptura com a cultura corporativa, com uma definição clara de valores e princípios, e de uma visão de país numa economia global, em que nos possamos projectar no futuro.
Nota simbólica: Ontem foram duas as mulheres que entraram no espaço republicano masculino. Este foi um momento memorável, embora seja referido como um “incidente” ou mera “interrupção”. Reparem que a república portuguesa é, ela própria, representada por uma mulher. E no entanto toda a sua cultura é bélica, masculina, a começar no seu hino e a acabar na forma de excluir as mulheres: uma simples mulher desesperada necessita de ser rodeada por vários homens musculados? Pelo menos, a cantora lírica conseguiu concluir a sua “Firmeza”.