Onde páram os escritores portugueses?

Há uns meses, estudava eu uns capítulos da Cambridge History of China (História pura e dura, portanto) referentes às guerras do ópio e, garanto-vos, ri umas boas gargalhadas com as descrições de John K. Fairbank, o coordenador da obra, da condução da guerra pelos chineses, onde nem faltavam estrategas inebriados pelo fumo do ópio (pois). Raríssimos historiadores combinarão, como Fairbank, o talento para a palavra com o rigor científico (ambos inatacáveis, ainda que os escritos de Fairbank sobre os inícios da civilização chinesa estejam já datados e, alguns, desmentidos pelas descobertas arqueológicas; de qualquer modo, quando Fairbank escreveu, era o melhor que havia). Em todo o caso, o que não falta pelo mundo anglo-saxónico são escritores com formação em História que, com maior ou menor talento ou maior ou menor fidelidade aos factos, escrevem para o grande público. Não se sabe se os académicos da área em Portugal têm escassa capacidade descritiva ou se são demasiado importantes para escrever para os comuns mortais em vez de para meia dúzia de outros académicos. O certo é que em Portugal se escrevem romances históricos – que geralmente qualquer leitura da contracapa desaconselha a compra e, jamais!, a leitura – mas não História para o grande público. As tentativas publicadas não foram bem sucedidas; recordo-me por exemplo das biografias dos reis de Portugal da Temas & Debates por vários académicos – dos poucos que li, além de serem biografias estritamente políticas (therefore secas e áridas e pouco sumarentas), não eram propriamente o que eu chamo de escrita talentosa e fluida, que, como se sabe, para dar vida à História é necessária alma de romancista.

Portugal tem uma História acidentada e curiosa, com muitas personagens, muitos povos, muitas historietas, muitos séculos. Há material inesgotável. A justificação que com frequência oiço é o da pequenez do tal grande público português. Tem alguma razão, mas não deixa de ser mera desculpa, como mostra a edição de livros sobre a História portuguesa de autores estrangeiros. A primeira biografia de Vasco da Gama que li foi escrita por Geneviéve Bouchon. Este ano foi editado The Last Crusade: The Epic Voyages of Vasco Da Gama por Nigel Cliff (de resto, a reincidir no tema), que já está na wishlist. E na semana passada foi lançado D. Manuel II, o último Rei de Portugal, de mais um autor com nome bem português: Ricardo Mateos Sáinz de Medrano.

Eu, que não sou de intrigas, diria que há interesse do público (nem sequer só português) pela nossa História. Se os portugueses com formação em História continuarem sem aproveitar esta procura evidente, terá de se lhes acrescentar a outros defeitos inépcia para um eventual bom negócio.

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3 respostas a Onde páram os escritores portugueses?

  1. agfernandes diz:

    Está bem visto, Maria João.
    Vão surgindo algumas biografias, mas uma história com algum fôlego, vivacidade e pormenores interessantes, de facto não se encontra.
    Ana

  2. Pedro diz:

    O mercado editorial em Portugal também não ajuda. E basta ir aqui ao lado, a Espanha, para tudo mudar. Mas passa também pelo meio académico, que é pequenino. De ideias.

  3. Pingback: Q&A sobre Descobrimentos | O Insurgente

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