A vingança serve-se num samovar

Parece que Putin anda a ceder à velha tentação de ditadores (e proto-ditadores e – tanto quanto os deixam, que é mais ou menos os jornalistas publicitarem todas as insanidades que dizem – presidentes socialistas, laicos e republicanos): o culto da (sua própria) personalidade. Já tem até exposição mostrando Putin como o novo Hércules, um enternecedor presente de aniversário de fãs anónimos (cof, cof, cof) do facebook.

Pegando nisto, o que tem piada (bem, para quem está a milhares de quilómetros) na questão ucraniana (e no modo estridente como geralmente coloca a Rússia no meio das relações entre nações) é que está, da parte de Putin, pejadinha de natureza humana. Ora é a anexação da Crimeia como a longamente aguardada (pelo próprio) vingança de Putin pelos bombardeamentos americanos no Kosovo (que aparentemente não bastou a humilhação de um néscio Obama aquando do uso de armas químicas pela Síria), ora é o jogo de desencontros a que o desconcertante Putin tem obrigado os Estados Unidos e a UE.

(Aqui no meio de outros assuntos refira-se que os tiranos e os tiranos wannabe costumam ser dados à vingança. Mao também passou grande parte da sua vida no pós 1949, como presidente do PCC e, durante algum tempo também da China, perseguindo os intelectuais chineses, mesmo os afetos ao PCC. A principal razão das perseguições: nos anos 20 os intelectuais comunistas de Pequim não aceitavam o provinciano e pouco estudado Mao como um deles e Mao nunca lhes perdoou tal sentimento de superioridade.)

Vejamos. É a afirmação – às vezes expressa outras vezes apenas sugerida, assim ao estilo dos monarcas absolutos que se divertiam a indicar quem estava em favor e quem estava em desgraça através de subtilezas só percetíveis aos olhos dos cortesãos sedentos de atenções reais – de que se pretende paz e respeito pela autonomia das nações, quando os atos mostram um Putin inteiramente desinteressado daquilo que expressa ou sugere interessar-se. A defesa da estratégia de poder pessoal de Putin (mais do que a defesa dos interesses russos) é o seu único objetivo.

É a recusa de uma comunicação franca e aberta com os interlocutores ocidentais, sendo que a comunicação por meios dúbios e sobressaltados leva inevitavelmente a mal entendidos e a confusões (que são seguramente desejados por Putin). Mal entendidos porque a posição e as pretensões russas nunca são inteiramente afirmadas, de forma a que os interlocutores nunca saibam bem o terreno que pisam. Mal entendidos porque se atribui à Rússia uma vontade de paz que não existe, o que se leva a que se interprete com demasiada benevolência os atos e palavras de Putin. E mal entendidos porque a própria forma de comunicação é prenhe de ocasiões para gerar as ditas confusões (colocarem-se os separatistas ucranianos negociando como se não fossem marionetas de Moscovo, por exemplo).

E perante todos os mal entendidos e os imbróglios criados, e ainda perante todas as oportunidades que foram oferecidas à Rússia para deixar de ser belicosa (e TODAS Putin fez questão de rejeitar – desde logo com o desinteresse em incentivar Assad a entregar todas as armas químicas), a mensagem de Putin aos EUA e UE continua a ser o bluff ‘keep trying again and again, que eu tenho gás natural e petróleo que tanto precisam’. Quando, claro, a UE e os EUA já estão fartos de pagar para ver.

A UE e os EUA não estão isentos de culpas na questão ucraniana, desde logo por considerarem sagradas as fronteiras de um país que foi uma criação feita a olho no fim da primeira guerra mundial – e, no caso da Crimeia, ter sido uma oferta russa de há sessenta anos – e que terá inúmeros problemas separatistas e de animosidades regionais se permanecer intocado. (Os europeus divertiram-se a desenhar fronteiras aleatórias por quase todos os continentes e parecem ainda não ter dado conta que o resultado não foi feliz e que não vale a pena persistir no erro.) E muito certamente não vale a pena começar uma guerra com a Rússia por causa da Ucrânia. Mas também não é necessário nem aconselhável continuarmos como patinhos a contribuir para a estratégia de engrandecimento do ego de Putin. Putin pode bem, se quiser, tomar a iniciativa de apaziguar as posições extremadas de todo o mundo. Esperemos sentados.

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