Como me interessa muito a mim – e tenho a bondade de supor que todos os leitores do Farmácia terão igualmente interesse tão assisado – a forma como a personalidade dos líderes políticos influencia a sua liderança (e como ando enredada no clímax do maoísmo que foi a Revolução Cultural chinesa), deixo aqui algumas sugestões que cruzam Mao homem com o Mao criatura política toda-poderosa na China (ou, mais acertado: debatendo-se campanha devastadora atrás de campanha devastadora para continuar a ser todo-poderoso).
Aging and Political Leadership, ed. por Angus McIntire, com um capítulo de Lowell Dittmer sobre Mao.
Mao Zedong, de Jonathan Spence, um livro pequeno (e com muitas falhas e omissões quem sabe se por isso) sobre Mao, mas que dá uma perspetiva curiosa (talvez demasiado benigna, ou talvez ainda sem algumas informações que os historiadores foram dando a conhecer ao mundo sobre Mao nos últimos anos) sobre a sua personalidade. A propósito do ressentimento de Mao para com os intelectuais que referi no post anterior, ofereço-vos duas citações (as traduções são minhas) do Mao de Spence.
«[E]le considerou os intelectuais de Pequim distantes e dando-se muita importância: ‘Eu tentava iniciar conversa com eles de assuntos políticos e culturais, mas eles eram muito ocupados. Não tinham tempo para um bibliotecário assistente que falava o dialecto do Sul.’» (p.34)
«Do ponto de vista marxista-leninista, dizia Mao, ‘muitos dos ditos intelectuais são de facto inexcedivelmente pouco educados’ e têm de perceber que ‘o conhecimento dos trabalhadores e camponeses é por vezes maior do que o deles’. Era um sentido de humildade que Mao recomendava que os seus ouvintes educados deviam cultivar.» (p.99)
E saindo do universo dos livros académicos, há também Mao, The Unknown Story, de Jung Chang (ou, em pinyin, Rong Zhang) e Jon Halliday, que tem como alfa e ómega a diabolização de Mao.
Se quiserem ler as informações do livro acima em modo romance policial – bem como as constantes no livro do médico de Mao, Li Zhisui (que Jonathan Spence e vários outros historiadores usam como fonte) – podem escolher The Mao Case, de Qiu Xiaolong.
O enredo policial é, como sempre, quase pueril. Mas (como sempre) os livros de Qiu Xiaolong valem pela descrição da China atual – os jogos de poder, a política que escancara todos os recantos das vidas chinesas, a ambivalência atual sobre a herança de Mao e a relação problemática da China com o seu passado, o fascínio chinês pela ostentação de riqueza e sexo. E, também muito interessante, as simultâneas lealdade e repulsa para com a China do autor (que é inteiramente transmitida para as histórias), que é um dos overseas chinese que abandonou a China pelos Estados Unidos depois de 1989.