Cobardolas e bluffers – onde estão, Jane Austen?

A P.D. James morreu e eu dei com um texto da Spectator onde a escritora dava umas opiniões sobre Jane Austen. De resto, P.D. James foi uma das blasfemas que escreveu uma sequela do Pride and Prejudice – evidentemente em modo policial. E foi a única das muitas sequelas que eu cheguei a comprar, esperando que o meu gosto por romances policiais obscurecesse a inevitável irritação por ver as minhas queridas personagens do PP pelos olhos (desfocados, claro) de outra pessoa. Comprei mas não li, foi intolerável e nem cheguei à parte em que ocorria o crime em Pemberley.

Adiante. No texto da Spectator P.D. James diz umas coisas curiosas sobre as medíocres figuras maternais dos livros de Austen. Nada que eu não tivesse já reparado, mas nunca tinha, enfim, colocado em forma de pensamento sistemático. E pus-me a pensar (aquela atividade sempre perigosa) e reparei que as relações familiares dos livros de Jane, tirando as notáveis exceções, são regra geral de fraca qualidade. Um dia destes ainda venho escrever sobre isso, que toda a gente anseia por nada mais do que umas breves análises das relações familiares em Jane Austen.

A P. D. James afirma também que Austen não tem vilões absolutos se não o General Tilney e a Mrs. Norris. Mas eu não concordo. Apesar da maldade de Mrs. Norris e do desrespeito por todos de Tilney, e do sofrimento que as suas ações provocam noutros, nenhum deles é um vilão absoluto. Simplesmente são pessoas intragáveis. Mais noutro dia, se eu tiver tempo.

Bom, mas por uma associação de ideias que seria fastidioso contar, dei-me conta que Jane Austen, dentro das suas muitas caricaturas, nunca retratou um género tão frequente na espécie humana: o cobardolas que passa a vida a fazer bluff. P.J. Wodehouse (sobretudo), Evelyn Waugh e até Nancy Mitford têm algumas incursões por esse tipo tão abundante. Não me refiro, por exemplo, ao político mentiroso que descaradamente afirma algo que sabe ser o contrário do que vai fazer. Não, é algo mais interessante, porque a mentira – ou o bluff – serve tanto para enganar os outros como a si próprio. Descrevo-os. Fazem bluff rezando para que ninguém pague para ver. Se alguém calls the bluff, afinal nada do que tinha sido sugerido ou prometido se concretiza, ou porque foi mal entendido de quem forçou o bluff ou porque houve alguma conspiração cósmica (sucedem repetidamente a estas pessoas) para que afinal não se entregasse o que se prometeu. E vão fazendo bluff – nem se dando ao trabalho de serem convincentes, e colocando a ambiguidade do costume, preparando já a escapatória, não se vá alguém ser teimoso em continuar a perder o seu tempo – até que os outros se fartem de pagar para ver. Se pagassem, o resultado seria o de sempre, mas, não pagando, iludem-se de que, desta última vez, conseguiriam estar à altura das suas promessas. No fundo, é uma forma tão usual como qualquer outra de se fingir que não se tem uma personalidade convencional e sensaborona, avessa ao risco, à excitação, às quebras da rotina, à aventura; enfim, que não se é pequeno.

Como disse, é um tipo abundante. O político que gosta de acreditar que é um socialista de boa cêpa, o comercial que vive iludido de que é um mago da gestão, o homem que gosta de dar ideia de que é um conquistador e um largo etc. Nem todos são bluffers enternecedores como Bertie Wooster, mas são sempre patéticos e risíveis e é uma pena que Jane Austen não se tenha inspirado para esse lado.

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