O Caso Spotlight e divagações

American actor Mark Ruffalo poses during the photocall for the movie " Spotlight "  at the 72nd Venice Film Festival, northern Italy September 3, 2015.  REUTERS/Stefano Rellandini

American actor Mark Ruffalo poses during the photocall for the movie ” Spotlight ” at the 72nd Venice Film Festival, northern Italy September 3, 2015. REUTERS/Stefano Rellandini

Fiquei desconcertada com esta crítica de Eurico de Barros ao filme O Caso Spotlight. Não exatamente pela apreciação do filme, ainda que também não concorde com ela. Não será um filme life changing – mas até pode ser, porque é um valente murro no estômago na forma de vermos a Igreja transformada numa fábrica de destruir crianças e adolescentes e, além disso, de uma máquina de proteção de abusadores sexuais de crianças que não pode se não ser aviltante para alguém católico (eu, por acaso) ou com valores filhos da civilização judaico-cristã – mas é um filme que conta de forma muito competente, e com interpretações irrepreensíveis, uma ótima história. E sendo eu uma pessoa que adora histórias (sou boa ouvinte, de pessoas interessantes e inteligentes of course, por alguma coisa), e que considero que por mais encantos formais que tenham um filme (ou um livro) não se aguenta sem uma boa história, isto já é dizer muito de O Caso Spotlight. Prefiro filmes assim do que filmes pomposos que pretendem sobretudo mostrar a genialidade do ponto de vista do autor sobre o mundo e que a maior parte das vezes não passam de exercícios de vaidade.

Mas lá no fim do texto confesso que me escapa a relevância de fazer equiparar – como se fossem fenómenos de igual dimensão ou maldade – a invenção de casos de abusos para exigir indemnizações à Igreja ou (suspiro) a implantação de memórias falsas (em adultos) de abusos sexuais ocorridos na infância. Até se dá o exemplo de um filme de Oliver Stone – quem mais? – sobre estas memórias falsas e injustas. (Não será mais relevante fazer um filme contando como nos meandros da Igreja – porque O Caso Spotlight conta a investigação jornalística que desmascarou os abusos e o encobrimento pela hierarquia católica em Boston – se lidou com esta questão?)

Ora andei a estudar nos últimos anos, para a dissertação de mestrado (cujo powerpoint para a defesa devia estar a preparar neste exato momento em vez de escrever posts) a memória de trauma, incluindo a forma como a memória traumática se fixa e é armazenada no cérebro. Esta polémica das supostas memórias de abusos sexuais na infância implantadas por psiquiatras e psicólogos malévolos surgiu na década de 1980, quando – e evidentemente para desacreditar – começaram a aparecer relatos sobretudo de mulheres (essas histéricas mentirosas) dando conta de terem sido vítimas de abusos sexuais, geralmente em contexto familiar, durante a infância e muitas vezes continuadamente. A polémica tinha razão de ser porque se questionava, por exemplo, se este tipo de memórias podiam servir de prova em tribunal.

A teoria psicanalítica considerava que as memórias traumáticas eram guardadas no cérebro e esquecidas, reaparecendo difusamente depois em forma de pesadelos, flashbacks e através da repetição compulsiva e involuntária do evento traumático. Mas estariam guardadas intactas no cérebro e podiam ser acedidas mais tarde através da hipnose ou de alguma catarse provocada por medicação. Entretanto já muito se estudou e as conclusões são escassas. Bessel van der Kolk, que investiga a neurobiologia do cérebro face ao trauma, fez um estudo famoso (mas polémico e contestado) que aparentemente confirma esta integridade das memórias armazenadas no cérebro. Mas permanecem abertas imensas questões, desde logo a razão porque algumas vítimas de trauma comprovado o lembram muito vividamente e outras não o lembram de todo. Muito em resumo, sabem-se algumas coisas. O trauma e a memória traumática deixam, de facto, uma cicatriz no cérebro, o que se comprova ao nível da neurobiologia. As memórias de eventos emocionalmente intensos tendem a ser mais fiáveis e a perdurarem mais, mas níveis de stress altamente intensos podem bloquear a fixação normal da memória, tornando-a de difícil acesso ou fragmentada. As memórias traumáticas são diferentes das não traumáticas: as traumáticas centram-se, por exemplo, nas emoções da vítima no momento (o medo, desde logo, a sensação de descontrolo sobre o próprio destino,…), no tom de voz do agressor, nos olhos,…; enquanto que as memórias não traumáticas são mais descritivas, mais factuais, mais em estilo reportagem (quantas pessoas, roupas, localização espacial,…). (É por isto que quando me dizem que os testemunhos do caso Casa Pia não são válidos porque as vítimas não conheciam as divisões e a morada da casa onde diziam terem sido abusados, eu respondo que de facto não foi isso que ficou registado na memória das vítimas e muito estranho seria se conseguissem descrever a casa como se lá tivessem sido visitas.) E no que toca a crianças não se sabe de todo, porque se já há muitas dúvidas quanto à fixação e armazenamento das memórias em adultos, a memória na infância é diferente, o mundo das crianças está impregnado de fantasia e desconhecimento do mundo, e todos sabemos que perdemos a esmagadora maioria das memórias da infância. Mas o que nunca se concluiu (e estudou-se) é que as memórias não se podem recuperar ou que as memórias recuperadas são falsas.

Pelo que Oliver Stone – que não é desconhecido das teorias alucinadas – até pode ter feito um filme interessante sobre alguém sugestionável que se convenceu que havia sido abusado na infância (não vi o filme referido). Mas é absolutamente irresponsável que num assunto sensível como o abuso sexual de crianças se coloque como fenómeno significativo e fiável uma onda de memórias falsas implantadas por gente maldosa nos cérebros fracos das senhoras (geralmente são senhoras) que lhes pagam as consultas.

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Uma resposta a O Caso Spotlight e divagações

  1. José Meireles Graça diz:

    Estava quase quase a eliminar a Farmácia do meu feed, por julgar o blogue extinto, mas eis que surge um post teu, ao fim de 6 meses. Ainda bem que não eliminei.

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