360

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Sempre considerei que tinha sorte com as pessoas que me apareciam na vida. Tenho um conjunto fenomenal da bons amigos, quase todos de há muitos anos (anos? décadas, devia dizer, que descreve melhor estas longevidades). Casei com um homem bom (e continua um homem bom, depois de termos descasado). Mas na verdade fiquei sempre numa certa zona de conforto, no meu mundo: os amigos do colégio, os amigos dos amigos do colégio, os namorados e namoradas das amigas e amigos (e depois os maridos e as mulheres da mesma pandilha), os amigos destes, as pessoas do CUPAV. Tirando escassas exceções, não fiz amigos no trabalho. Pessoas com que me dava muito bem, sim, mas amigos (uma categoria de eleição cheia de requisitos complicados para entrar), bom, não diria tanto. Sempre me impressionou como as pessoas com que me relaciono na política ou na comunicação social dizem de outros que são amigos, quando apenas se viram meia dúzia de vezes e têm uma relação perfeitamente casual e desligada. Eu posso dizer que gosto das pessoas, que me dou bem com elas, mas amigos, bem, faltam uma série de experiências mais vinculativas que os juramentos de sangue para chegarmos a tanto.

Adiante.

Na verdade, quando saí desta redoma, pelas redes sociais, pela blogosfera, pelos novos projetos, e me comecei a dar com mais pessoas, não corre muito bem. Podem ser pessoas interessantes, até intelectualmente mais estimulantes, com experiências que gosto de ouvir, aqui e ali dá-se o caso de gostar mesmo muito de alguns exemplares, mas muito raramente (existem só aqui e ali, lá está) são pessoas com que possamos estabelecer relações significantes. Há pessoas com valores que chocam em colisão frontal com os meus e e deflagra uma guerra termonuclear. Num caso ou noutro de fanatismo reforçado, estou firmemente convencida que, calhando terem nascido nas primeiras décadas do século XX na Alemanha ou na Rússia, teriam alegremente enveredado por carreira de algozes de Hitler ou de Stalin. Há mentira e dissimulação de uma dimensão que não se pode tolerar em relações pessoais. Há discursos e narrativas dissonantes das nossas, o que é natural e esperável para um é esotérico e incompreensível para outro. Há agendas pessoais que se cruzam e se sobrepõem a tudo. Há deslealdades e traiçoeirices e há almas para quem ser desleal e traiçoeiro é tão natural quanto respirar. Já encontrei pessoas que só posso qualificar de psicopatas. Outras, não chegando a esse patamar cimeiro, são má rés ainda assim. Não posso baixar a guarda – das vezes que o fiz correu mal. É um novo meio cansativo e pouco recompensador, que exige demasiado esforço para reduzidíssima retribuição – se alguma, que o objetivo é sobretudo usar os outros em benefício próprio, lá agora estabelecer relações pessoais enriquecedoras.

Eu, muito mal habituada que vinha da minha redoma, não me dou bem nestes ambientes. Aprecio estabilidade e solidez nas relações e nas pessoas. Gosto de espécimes humanos fáceis que eu consiga ler. Não gosto de jogos nem de quem se coloca em pedestais. Gosto de pessoas que se deixam encontrar. Gosto de boas almas para quem a palavra vale e significa o que lá é dito. Não gosto de cobardes nem de quem não diz o que quer e ao que vem. Não tolero crueldades ou leveza com o bem dos outros. Descarto afetos relutantes que só são dados tarde e a más horas. Não convivo com quem faz negócio da humilhação e do enxovalho dos outros quando estes se expõem, ou que participa em carneiradas de bullying aos antigos aliados quando estes precisam de proteção. Às tantas a única emoção que me resta pela maioria destes exemplares, além de um brutal cansaço, é ressentimento por me terem feito acreditar que eram pessoas límpidas e claras de quem eu podia gostar e em quem podia confiar. E odeio ter em mim emoções tóxicas.

Pelo que em se tratando de pessoas é mesmo uma volta de 360º. Nada me delicia mais que ouvir alguém que fala como eu, que tem os mesmos conceitos que eu, que parece que está na minha redoma desde sempre, que me faz regressar ao princípio.

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