Uma espécie de post natalício, mas ao contrário

Desculpem lá o contraciclo natalício, mas há pouco apanhei no twitter a história de um rapaz que nunca contactou o pai (porque o pai não quis) mas descobriu que a criatura tinha acabado de publicar um livro com título Criando Filhos Emocionalmente Saudáveis. Bom, passando ao lado da evidente hipocrisia do autor do livro (se calhar fazer parte da vida do filho e sustentá-lo e amá-lo é um começo para a saúde emocional), há outra parte que me interessa relevar, porque é uma das formas mais cobardes que individualmente e socialmente se usa para desculpar o mal que se faz: o silêncio e a ausência – que os hipócritas do mundo apresentam como neutros, ou simplesmente uma não ação inócua – são escolhas que se fazem em prol do mal do outro. O silêncio e a ausência são fazer mal ao outro. São as formas mais frias e cobardes de mostrar ao outro que é irrelevante, que não conta, que não é amado, de o prejudicar.

Vê-se nos casos em que as comunidades se calam perante agressões a determinados indivíduos ou grupos. Seja num caso de racismo e discriminação, seja nos muitos casos de denúncia pelas vítimas de crimes de violência sexual ou violência doméstica, seja em ataques coletivos concertados a um alvo. Calar (ou mesmo remeter a fala e ação para outras instâncias, como tribunais ou governos, isentando-nos de tomar partido) é tomar parte pelo agressor(es) e virar a cara à(s) vítima(s). O silêncio afeta mais mulheres e outros grupos mais vulneráveis, porque é sempre mais fácil escolher o silêncio que beneficia os mais poderosos.

Vê-se nas relações pessoais quando as pessoas escolhem a ausência e o silêncio. E são sempre casos chapados de desamor agudo e de indiferença. Não há atenuantes.

Vê-se nos comportamentos quotidianos que deixamos de ter. De cada vez que podemos ajudar alguém e não o fazemos – a moeda ao sem abrigo, o telefonema à amiga que sabemos em baixo, a pessoa em aflição que se cruza connosco,… Quando temos informação que pode beneficiar um terceiro mas não a partilhamos e ficamos a assistir à falta que o que sabemos lhe faz. Das vezes que magoamos outros e não nos damos ao trabalho de pedir desculpa e de nos esforçarmos para reparar a relação, reiterando e repetindo desta forma o que originou a mágoa. Nas ocasiões em que uma palavra pública nossa amenizava a situação, mas preferimos deixar os eventos agrestes para alguém em vez de os amenizarmos. Os exemplos são intermináveis.

Como bem dizem os católicos, temos de responder por atos, palavras e omissões. As omissões são escolhas deliberadas, são violentas, são corrosivas, são formas frias e cobardes de desamar o outro. Pela minha parte, são determinantes para a minha opinião sobre pessoas e comunidades as omissões, silêncios e ausências que escolhem ter. Um momento infeliz todos perpetramos ocasionalmente, um erro de avaliação que explode numa qualquer ocasião. Mas a escolha continuada, ponderada, deliberada do silêncio, da ausência e da omissão é um espelho demasiado cru da pessoa ou da comunidade.

Não foi para isto que se fez o Natal.

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